Gramado 2019: ‘Veneza’ e o elogio do sonho
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Gramado 2019: ‘Veneza’ e o elogio do sonho

Antes de apresentar sua equipe, o diretor Miguel Falabella leu um manifesto contra o desmanche do cinema brasileiro, assinado por mais de 60 entidades representativas

Luiz Zanin Oricchio

23 de agosto de 2019 | 12h15

Dira Paes e Du Moscovis em ‘Veneza’, de Miguel Falabella

GRAMADO – Na apresentação de Veneza, seu segundo filme (o primeiro foi Polaroides Urbanas), Miguel Falabella leu um documento assinado por 63 entidades em defesa do cinema, atacado e ameaçado pelo governo federal. Era a realidade, essa terrível realidade política que se abateu sobre o país e, literalmente, o está deixando em chamas. Se não nos mexermos, de cinzas será o nosso futuro. Se houver. 

Em seguida, vem o filme – e aí entramos no domínio do sonho, mas ainda não de forma imediata. Carmem Maura faz uma mulher idosa, dona de bordel, cega e à beira da morte. Amada por suas “meninas”, ela revela seu último sonho: conhecer Veneza e lá reencontrar seu amor de juventude. 

Na maneira como o senti, o filme demora um tanto a engrenar, mas essa espera, na verdade, prepara um desfecho glorioso. Impossibilitadas de levar a Gringa (Maura) à cidade italiana, as mulheres (Dira Paes, Carol Castro, Danielle Winits) e o homem do bordel, Tonho (Du Moscovis), preparam uma “viagem possível”, no plano do imaginário, para satisfazer o desejo da velha senhora. 

O filme é baseado na peça Venecia, de Jorge Accame ,e, deve-se dizer, escapa à dimensão teatral, virando cinema pela magia da fotografia de Gustavo Habda, um craque. 

É curioso como aproxima duas dimensões do sonho, duas artes antigas, a do bordel e a do circo, nos quais a imaginação tem papel tão fundamental. Putas e palhaços vendem ilusões. E, afinal, é pelo circo que a dona do bordel poderá realizar seu desejo. No fundo, um desejo terminal, o de conhecer uma cidade que é também a dos sonhos românticos, Veneza, e o reencontro (impossível no plano da realidade) de um amor rompido há mais de 50 anos. Essas confluências todas, juntadas no final, e ao som de E Lucevan le Stelle, da Tosca, de Puccini, colocam o filme num patamar que não poderíamos prever em seu início hesitante. 

Estrangeiro

Muito bom e impactante o chileno Pedro Bomba, de Juan Cáceres, sobre a questão dos imigrantes. Steevens (Steevens Benjamin) é um imigrante haitiano em Santiago. Discriminado e humilhado, ele perde a cabeça e agride o patrão (Alfredo Castro). Sua situação se complica e ele vegeta em subempregos, sofre pela falta de moradia e documentos. Diz o diretor que o filme não tinha roteiro. A história ia se fazendo, com a câmera na mão, à medida em que se penetrava a saga do personagem – ele próprio um imigrante e que de fato vivenciou as situações vistas no filme. Tem a marca da autenticidade. 

Curtas

A Ética das Hienas, de Rodolpho de Barros, começou a ser pensado em 2014 e foi crescendo à medida em que a realidade brasileira foi se deteriorando, com o golpe de 2016 e a posterior eleição de Bolsonaro. A fragilização das relações entre trabalhadores e empregadores está no centro desse filme que fala do operário (Servílio Holanda) e sua tentativa de processar a empresa por um acidente de trabalho. Acordos fraudulentos entre advogados e empresários mostram qual é a parte mais fraca do processo. A cada vez mais fraca. 

Sangro, de Tiago Minamisawa, Bruno H Castro, Guto BR (codireção), é uma curiosa e emocionante animação, que trabalha o relato de um soropositivo sobre intervenções nas imagens de O Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch

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