Gramado 2019. Marquezine vai a nado
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Gramado 2019. Marquezine vai a nado

O grande frisson veio com a chegada de Bruna Marquezine à serra gaúcha. Mas a maior emoção foi a entrega do Troféu Oscarito a Lázaro Ramos

Luiz Zanin Oricchio

20 de agosto de 2019 | 11h54

Assédio: Bruna Marquezine em Gramado. Edison Vara/Pressphoto

 

GRAMADO – O grande frisson de ontem na serra gaúcha foi a chegada à cidade de Bruna Marquezine. Causou tumulto no tapete vermelho e, no final da sessão, houve necessidade de um esquema de segurança especial para evitar o assédio excessivo de fãs. Bruna está em Gramado para defender seu filme Vou Nadar até Você, de Klaus Mitteldorf. Bruna causou. O filme, nem tanto. 

Ela faz Ophelia, jovem fotógrafa que vive em Santos com a mãe. Pensa ter descoberto quem é o pai, um fotógrafo alemão famoso, Tedesco (Peter Ketnath, de Cinema, Aspirinas e Urubus) e decide ir ao seu encontro onde ele mora, em Ubatuba. A nado. Quer dizer, ela nada uns trechos, segue por terra em carona e assim vai subindo o litoral norte paulista em direção ao pai. Este, por sua vez, envia um espião/emissário (Fernando Alves Pinto) para espreitar os passos – ou melhor, as braçadas – da suposta filha que vem chegando. 

As imagens, tanto de Bruna como do litoral, são muito bonitas. Ao mesmo tempo, um vazio estranho acompanha o desenvolvimento da história, que teria potencial, uma vez que ela vai encontrando pessoas ao longo da estrada, quer dizer, da costa, ganhando experiência e aprendendo coisas. Fazendo uma viagem de iniciação, como se diz. Mas tudo parece cair no vazio. Até mesmo, ou em especial, quando a história vira um thriller sob o pretexto estranho de uma rivalidade do pai com outro personagem. 

Em algum momento de sua vida, Mitteldorf deve ter visto O Nadador, de Frank Perry. Burt Lancaster é o personagem que vai de piscina em piscina da vizinhança em busca de alguma coisa do seu passado, num filme estranho e de tom metafísico, baseado numa novela de John Cheever. Juro que, a princípio esperei coisa, não digo semelhante, mas inspirada nessa ideia, que é a da regressão, através da água, e do nado, a algo de mais primevo e essencial. Mas não é assim, e o apelo às facilidades visuais do universo fashion transformam o filme em nado de superfície, e sem grande convicção.  

Pai e filho. O ator Lázaro Ramos em Gramado, com o pai, Ivan Ramos

O tititi da noite pode ter sido causado por Bruna Marquezine, mas a emoção maior veio na homenagem ao ator Lázaro Ramos. Ele foi agraciado com o Troféu Oscarito e comoveu a todos dedicando o prêmio ao pai, que estava na platéia, e à sua mentora, a atriz Ruth de Souza, morta há pouco. Um viva para Lázaro que, além de grande artista, é excelente pessoa. Não, nem sempre essas duas qualidades vêm juntas. Em Lázaro, ambas sobram. 

Boliviano

O concorrente na competição latina foi o boliviano Muralla, de Gory Patiño. Filme um tanto lúgubre, sobre o ex-goleiro que teve seu momento de glória ao defender um pênalti numa final de campeonato. Agora aposentado, e sem melhores meios de sobrevivência, dirige um lotação caindo aos pedaços pelas ruas de La Paz. Tem um filho doente, que precisa de cirurgia urgente, e, para arrumar dinheiro, Muralla mete-se com uma quadrilha que trafica pessoas. Ou seja, vendedores de órgãos vitais para transplante, talvez o mais sórdido dos crimes inventados pela mente humana. Com boas qualidades de fatura cinematográfica, o filme se perde às vezes no melodrama, na violência gratuita e em certa obviedade. 

Argentino

Já se disse que o argentino é o povo mais psicanalisado do planeta e quem assiste a La Forma de las Horas aprende que este não é um clichê. Essa crônica de um colapso amoroso, desenrolado no tempo ficcional de 24 horas, é psicanálise pura, num filme inteligente, cerebral mesmo e esculpido em belas imagens. Julieta Díaz e Jean Pierre Noher fazem o casal que se reencontra para terminar uma separação. Ela é escritora e o relato que se vê na tela reflete o livro que ela tenta escrever a respeito, avançando aos poucos, apagando o que já estava escrito, reescrevendo. Falta um pouco de seiva vital. A diretora Paula de Luque disse que o filme foi feito sem qualquer apoio institucional, na garra e na dependência da boa vontade de elenco e técnicos. Macri fez com o audiovisual argentino o que Bolsonaro está tentando fazer com o brasileiro. 

 

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