Gramado 2019: O Homem Cordial e seus impasses
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Gramado 2019: O Homem Cordial e seus impasses

'O Homem Cordial' demole o estereótipo criado em torno da expressão de Sérgio Buarque e fala de racismo, difamação via redes sociais e violência policial

Luiz Zanin Oricchio

17 de agosto de 2019 | 14h19

Debate com a equipe de O Homem Cordial, com Thaíde na esquerda da foto. Edison Vara/Pressphoto

 

GRAMADO – Antes do programa da noite, as apresentadoras Renata Boldrini e Marla Martins homenagearam os curadores do festival desaparecidos ao longo do ano. A produtora argentina Vera Piwowarski e o crítico brasileiro Rubens Ewald morreram em 2019 e deixaram o festival em maus lençóis para terminar a seleção de filmes. Ainda não se anunciou se e como serão substituídos. Ambos tinham muitos amigos e as mortes foram sentidas por todos que acompanham o festival. 

O primeiro concorrente da mostra competitiva de longas foi O Homem Cordial, de Iberê Carvalho, filmado em São Paulo. Na apresentação, a produtora Maíra Carvalho leu um manifesto da API(associação dos produtores independentes): 

“Nossa solidariedade e apoio aos colegas Produtorxs, Diretorxs e equipes que tiveram seus projetos censurados antes mesmo do fim da seleção. Consideramos grave a afronta aos direitos e liberdades constitucionais.

Censura nunca mais.”

 

Em O Homem Cordial, o Titã Paulo Miklos é Aurélio Sá, roqueiro dos anos 1980 que tenta uma rentré no mercado de shows. Mas os planos vão por água abaixo quando Aurélio interfere na tentativa de linchamento de um menor suspeito de haver furtado um celular. Tomando a defesa do garoto, Aurélio é filmado por um desses grupos protofascistas que hoje proliferam no Brasil e as imagens viralizam na rede. Bombadas pelo fato de um policial ter sido morto ao tentar perseguir o suposto ladrão. Aurélio ganha fama de “protetor de bandidos e vê sua vida transformada em inferno” e cúmplice do assassinato do policial. 

Miklos está muito bem e sua odisseia pela noite paulistana parece às vezes o clássico Depois de Horas, de Martin Scorsese. A pegada do filme é humanista e de denúncia da utilização das redes para demonizar opositores e também da violência policial, cujo alvo preferencial, como sabem todos são indivíduos pobres e pretos.

Aliás, o martírio de Aurélio abre outra vertente do filme e talvez a sua principal. Ao procurar pelo menino desaparecido, ele retoma o contato com um antigo parceiro de grupo, rapper Thaíde. Este deixou o grupo (ou foi por ele deixado) e abriu um bar na periferia, que acolhe jovens talentos negros, inclusive uma praticante de Slam. Ela convida Aurélio para um desafio e este fica calado diante dos versos eloquentes da moça, que falam da discriminação racial. É como uma revelação, à qual ele não pode e não deve responder – o momento é de calar e ouvir o que o Outro tem a dizer.  O racismo estrutural brasileiro subjaz à toda ação do filme e determina o seu curso. 

Curta

O primeiro concorrente foi A Pedra (RS), de Iuli Gerbase. Na história, bem narrada, uma garota, Pietra (Ester Amanda Schafer) fica com medo quando o bote em que a família está fazendo rafting encalha numa rocha no meio do rio. Obriga o pai a fazer o resto do percurso com ela, a pé, através da mata, de volta ao acampamento. Na conversa entre os dois, pinta a história de uma mensagem, deixada no celular do pai, que a garota leu. 

Bem dirigido, em particular nas cenas movimentadas do rio, o curta ganha um caráter quase estático durante a revelação que muda o curso da narrativa. Esta se torna tensa, misteriosa e deixada em aberto. Um bom trabalho da filha do cineasta Carlos Gerbase. A fotografia é de um craque, Bruno Polidoro. 

 

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