Gramado 2018: Em ‘Benzinho’, a vida se salva pelo afeto
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Gramado 2018: Em ‘Benzinho’, a vida se salva pelo afeto

Destaque em Gramado, filme de Gustavo PIzzi fala de família que luta com mil dificuldades financeiras mas enfrenta a vida com coragem e amor. O premiado paraguaio 'Las Herederas' também causou ótima impressão. A noite se completou com dois ótimos curtas

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2018 | 09h28

GRAMADO/RS

No palco do Palácio dos Festivais, uma emocionada Karina Telles disse que faltava afeto ao Brasil atual e seu filme tratava disso. Ela falava de Benzinho, filme estrelado por ela, dirigido por seu ex-marido, Gustavo Pizzi, e no qual trabalham seus dois filhos gêmeos. É um filme adorável, com elenco docemente afinado, no qual entram bambas como Adriana Esteves, Otávio Muller e Cesar Troncoso.

Benzinho é a história de uma família tão caótica quanto unida. A mãe, Irene (Karina) sobrevive vendendo roupas numa velha Kombi, o pai sonha com vários empreendimentos que nunca dão certo e dependem da venda de uma casa de praia em Araruama. Os filhos estão sempre agitados, dos gêmeos a um irmão que toca baixo tuba na banda escolar e outro, adolescente, goleiro de handball, convidado a jogar na Alemanha. Esse é o ponto: surge a oportunidade da vida para o garoto, mas a mãe não suporta separar-se do filho. Para assinar contrato, ele precisa viajar em 20 dias para a Europa.

Ao observar (de muito perto) uma família de classe média baixa, Benzinho é muitas coisas ao mesmo tempo. Por exemplo, fala de Irene, uma mulher sobrecarregada de tarefas e que enfrenta a todas com igual coragem, porém se desgasta com isso. Curiosamente, o filme vencedor de Gramado no ano passado, Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, tinha por protagonista uma mulher oprimida por uma multidão de tarefas (Maria Ribeiro).

Em Benzinho, trata-se também disso, mas de forma ainda mais caótica. A personagem de Maria Ribeiro era de classe média alta. A linguagem do filme seguia essa versão mais ordenada da sobrecarga feminina. Em Benzinho, o caos instala-se de maneira mais agressiva. Moram numa casa caindo aos pedaços, na qual a porta travou e só se tem acesso por uma janela. As torneiras estão sempre estourando, a comida queima no fogão, as crianças estão sempre gritando, brincando ou brigando. Além disso, Irene planeja uma reforma da casa e tem de acolher sua irmã Sonia (Adriana Esteves), agredida pelo marido viciado em drogas Alan (Cesar Troncoso). Em meio a tudo isso, ainda consegue o diploma do 2º grau, porque aspira a um emprego estável, mesmo que pague pouco porque “é sempre um dinheirinho certo no fim do mês”. Vida brasileira.

O que faz a graça e o encanto de Benzinho é o afeto que passa por essa existência desordenada e lhe dá liga. Karine Telles brilha como essa mãezona que distribui carinho a todos e transborda de energia e alegria de viver. É comovente. Um nome para o Kikito de melhor atriz, embora o festival tenha muito a mostrar.

Concorrente estrangeiro, Las Herederas

Igualmente encantador foi o concorrente estrangeiro, o paraguaio Las Herederas, de Marcelo Martinessi.

A história é singela – em aparência. Duas senhoras vivem juntas há muitos anos. Os sinais de antiga riqueza da casa não escondem a decadência. Têm de colocar a prataria e os móveis de época à venda para pagar dívidas. Mesmo assim, uma delas, Chiquitita (Margarita Irún), processada por credores, será obrigada a passar uma temporada na cadeia.

Desse modo, a que fica em liberdade, Chela (Ana Brun) terá de se virar. Começa a trabalhar de chofer para a vizinhança, conduzindo a velha Mercedez Benz da família.

La Herederas é um filme sobre mulheres. É também sobre questões de gênero, pois paira, em segundo plano (passando, pelo menos em uma sequência para o primeiro), a questão da homossexualidade. Trabalhando como taxista improvisada, Chela conhece outras figuras, como a vizinha Pituca (impagável Maria Martins) e a sedutora Andy (Ana Ivanova).

No fundo, é uma história de liberação, pois na “pareja” formada por Chela e Chiquitita, esta última ocupa o lugar de dominante. Chela não perderá a oportunidade causada por essa situação paradoxal – enquanto a parceira perde a liberdade, ela a obtém.

O filme é de uma sutileza ímpar. E, na entrevista, as atrizes impressionaram por sua cultura e elegância. Ao ver a minha admiração, o ator Chico Diaz, que assistia à coletiva de imprensa ao meu lado, comentou: “Há muito preconceito em relação ao Paraguai”.

Verdade pura. O brasileiro, sofrendo de um interminável Complexo de Vira-latas, por contradição sente-se superior aos seus vizinhos latino-americanos. Vá lá entender.

Em todo caso, Ana Brun, advogada de profissão e com raras incursões pelos palcos, disse que teve de adotar esse nome artístico para não comprometer suas atividades profissionais como defensora de direitos autorais. Mas, quando obteve sucesso em Berlim (ganhou o Urso de Prata de melhor atriz) tornou-se famosa em seu país. Brincando, diz que quando o diretor Marcelo Martinessi a convidou, respondeu que aceitava mas ia perder clientes com isso. “Acabei foi ganhando mais casos para defender”, ri-se . No mesmo festival alemão, Martinessi ganhou o Prêmio Alfred Bauer em Berlim como melhor diretor. O filme também foi o escolhido pela Fipresci, o organismo internacional de críticos de cinema. 

O êxito internacional causou polêmica no Paraguai, conforme explicou o produtor Sebastian Peña Escobar. “Vivemos ainda numa sociedade muito conservadora e, pela temática de Las Herederas, esperávamos problemas. No entanto, o sucesso no exterior obrigou as pessoas a se definirem, a partir do filme, entre progressistas e trogloditas, que não aceitam a opção sexual das personagens”, disse.

Leia sobre a polêmica no Paraguai

Curtas

Um Filme de Baixo Orçamento, de Paulo Leierer, é uma comédia em tom baixo, coisa rara entre nós. Põe em foco um imaginário Instituto Brasileiro de Ciências Alternativas, com seus experimentos inusitados. Lembra aquelas comédias do Leste Europeu, em que os absurdos são tratados em tom sóbrio e sério. Divertido.

Guaxuma é uma bonita animação feita de maneira artesanal por Nara Normande. De maneira autobiográfica, ela conta sua infância na praia alagoana que dá título ao filme. A técnica é em areia e mescla fotos de época e narração em off da própria diretora. Ela fala de sua família nos anos hippies e da amizade entre ela e Tayra. Muito bonito filme.

 

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