Gramado 2018: Averno, alegoria latino-americana
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Gramado 2018: Averno, alegoria latino-americana

Filme boliviano se vale da mitologia andina para, segundo seu diretor Marcos Loyaza, escapar ao realismo comum, que domina a cinematografia latino-americana e não apenas ela

Luiz Zanin Oricchio

23 de agosto de 2018 | 11h05

 

GRAMADO/RS

Com a ausência do concorrente brasileiro O Banquete – retirado pela diretora Daniela Thomas em respeito à memória de Otávio Frias Filho, publisher da Folha falecido terça-feira – o Festival de Gramado teve uma noite fraca. Sobrou, na competição, o boliviano Averno, que pouco entusiasmou o público.

Dirigido por Marcos Loyaza, Averno (quer dizer, inferno) baseia-se em lendas andinas para construir a trajetória do jovem engraxate Tupah (Paolo Vargas), que sai em busca do seu tio, músico, convidado para tocar num enterro.

Na saga de Tupah, o registro realista vai sendo progressivamente abandonado até entrar num universo mitológico, que dialoga com o realismo mágico. A estética perde leveza e torna-se pesada, fazendo pensar em filmes de outra era e que faziam sentido em outro quadro histórico.

Há momentos interessantes e a fotografia (de Nelson Wainstein) não é nada banal. Mas nem a beleza de certas cenas, nem a música interessante, ou algumas circunstâncias instigantes porque misteriosas, são capazes de dar à trama autonomia de voo de modo a empolgar o público.

Em entrevista, Loyaza disse que havia abandonado a linguagem realista, “pois desta já temos bastante nas redes sociais”.

Revolveu, portanto imergir no imaginário mítico do seu país. “Li Freud, depois James Campbell, e fui mais atrás ainda, de Otto Rank a Jung. As mitologias todas se parecem, por isso há tantas referências à Grécia”, diz. De fato, aparece inclusive um Minotauro, mas devidamente paramentado em referência com a mitologia andina.

Gostaria de acrescentar o seguinte. Vi um dos filmes anteriores de Loyaza, o encantador Cuestión de Fé, este sim vazado numa linguagem bastante mais próxima ao real. Claro que, nessa medida, a obra se torna mais palatável, mais comunicativa.

Por outro lado, existe uma antiga reivindicação continental sobre a eleição de uma linguagem própria, tanto no cinema, como na literatura e em outras artes. Falando de literatura, o boom do realismo mágico (cujo expoente máximo é o colombiano Gabriel García Márquez) fala por si só.

Mas nem sempre isso acontece. A reivindicação de linguagem própria vem de longe, dos argentinos Fernando Solanas e Octavio Getino, ao brasileiro Glauber Rocha, passando pelo chileno Miguel Littin, entre outros. Nem sempre deu certo, em especial no quesito comunicação com o público. Mas é óbvio que o artista tem todo o direito – e mais ainda, a obrigação – de tentar encontrar sua linguagem própria, que ele considera como expressão da linguagem do seu povo, afastando-se de formas mais aceitas, palatáveis e, por isso, com mais chances de sucesso.

É sempre um risco. Esse, o risco assumido por Averno.

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