Gramado 2019. As nadadoras
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Gramado 2019. As nadadoras

O brasileiro Raia 4 e o equatoriano A Son of Man deram seguimento às mostras competitivas do Festival de Gramado

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2019 | 16h14

Bastante interessante o segundo competidor brasileiro, o gaúcho Raia 4, estreia em longas de Emiliano Cunha. O filme ambienta-se no competitivo mundo da natação e o articula com a crise da chegada da adolescência, em particular a de uma menina, Amanda (Brídia Moni). Ela enfrenta a chegada da primeira menstruação, rivalidade com colegas, em especial com Priscila (Kethelen Guadanini) e uma relação um tanto distante com os pais (Fernanda Chicolet e Rafael Sig), ambos médicos e super ocupados. 

Raia 4 é aquele tipo de filme que representa um problema para críticos. Ao comentá-lo, é muito fácil cair em spoiler, porque o desfecho é fundamental e ressignifica todo o resto da história. Ficamos sabendo, pela entrevista com o diretor (portanto num extracampo cinematográfico), que o final nem era para ser o que é, mas lhe foi sugerido durante a filmagem, um acaso que lhe causou grande emoção e afirmou-se como o final desejado (ou inevitável). 

O fato é que nada ou pouca coisa ao longo do enredo, prepara o espectador para ele. O registro é realista – mas de um realismo refinado, nada óbvio, que promove uma imersão do espectador no mundo retratado. Ou seja, o dos treinamentos exaustivos, das viagens para competição, das brincadeiras entre atletas, a relação paternal que se estabelece com o treinador da equipe, etc. Essa familiaridade não é gratuita – o diretor foi, ele próprio, nadador de prova na infância e adolescência. 

A opção foi por construir uma personagem principal introvertida, que se relaciona com dificuldade e mostra uma espécie de mistura de retraimento e agressividade bem estranhos, mas, pensando bem, nada incomum entre adolescentes. O trabalho com a atriz, que de fato é atleta da natação, parece muito eficaz. 

Entre suas influências, Emiliano destaca a argentina Lucrecia Martel (O Pântano, A Menina Santa) como a principal. No entanto, o universo um tanto poroso e perverso de Martel comparece em doses apenas homeopáticas em Raia 4, filme de baixa intensidade dramática, com a exceção do desfecho. 

O roteiro, disse o diretor, passou por várias etapas de escritura, laboratórios, foi revisado por um script doctor, etc. Tenho uma dúvida sincera a respeito desse tipo de procedimento, cada vez mais comum no cinema profissional. Será que, ao passar por tantas mãos, laboratórios, consultores e especialistas, um roteiro original não corre o risco de sair deformado e, no limite, esterilizado justamente no que poderia ter de mais criativo? Apenas uma pergunta.

A Son of Man, o Equador fantástico

Ninguém pode negar que o representante equatoriano seja um filme estranho. A começar pelo título – A Son of Man – La Maldición del Tesoro de Atahualpa e terminando pelo nome do diretor, Jamaicanoproblem. Na entrevista, ele revelou seu nome civil, um daqueles nomes hispânicos, com dezenas de sobrenomes e acento nobiliárquico. Resumido, o nome do diretor é Luis Felipe Fernandez-Salvador y Boloña. Fiquemos, então, com Jamaicanoproblem. Ele apareceu na sala de entrevistas vestido como dândi e na companhia de uma deusa loura, atriz do filme, Lily van Ghemen, que se expressa em inglês. 

O narrador é um jovem, que também fala em inglês, foi abandonado pelo pai e criado nos Estados Unidos. Recebe o chamado do pai, na forma de uma passagem de avião e vai encontrá-lo no Equador. Juntos, e com Lily, partirão em busca de um mitológico tesouro, que teria sido escondido pelo inca Atahualpa, assassinado pelos colonizadores espanhóis. O filme toma, então o tom de uma aventura, com traços fantásticos, que procura dialogar com o clássico Aguirre – a Cólera dos Deuses, de Werner Herzog. O protagonista é interpretado pelo próprio diretor e o jovem Pipe é seu filho na vida real. 

Não se pode negar beleza ao filme. E nem esse grão de loucura que faz a arte respirar e sem a qual ela parece sem graça. A realidade confina com o fantástico e com o imaginário. Há alusões a Nietzsche e, talvez, a Calderón de la Barca, “…a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são”. Com boa vontade, dá para embarcar nessa viagem. 

Diz Dom Luis Felipe Fernandez-Salvador y Boloña que, para decodificar o filme, é preciso vê-lo, no mínimo, três vezes. Acredite. 

Dois curtas

A Mulher que eu Sou, de Nathália Tereza. O filme é de uma simplicidade total. Marta (Cássia Damasceno) resolve recomeçar a vida em outra cidade e, junto com a filha, procura um imóvel para alugar ou, talvez, comprar. É atendida por um corretor imobiliário sedutor (Renato Novaes). O filme aposta tanto na questão da feminilidade quanto no protagonismo black – todos os personagens são negros e interpretados por atores e atrizes negras. A diretora é branca e não há conflito de lugar de fala.  

Marie, de Léo Tabosa. Aqui é a questão trans que se insinua. Mário, transformado em Marie, volta depois de 15 anos ao sertão para o enterro do pai. Que o(a) renegou em tempos passados. Como o pai desejava ser enterrado no Crato, a filha resolve, com a ajuda de um amigo de infância, Estevão (Rômulo Braga), atender ao desejo do morto e transportar o corpo para sua terra natal. O filme muda-se, assim, em road movie funerário, no qual questões antigas e não resolvidas são abordadas por Marie e Estevão durante a viagem. Destaque para a participação da atriz trans Divina Valéria, fazendo uma mulher cis no velório do pai de Marie. 

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