Gramado 2018: ‘A Voz do Silêncio’, lado B de São Paulo
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Gramado 2018: ‘A Voz do Silêncio’, lado B de São Paulo

Primeiro concorrente nacional em Gramado, filme de André Ristum põe em cena personagens sofridos, em busca de uma problemática redenção numa cidade implacável

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2018 | 13h11

Gramado – RS 18/08/2018 – 46º Festival de Cinema de Gramado – Entrevista atriz Marieta Severo – Foto: Edison Vara / Pressphoto

 

GRAMADO/RS

Dar voz aos figurantes da cidade. É a proposta de André Ristum, diretor de A Voz do Silêncio, primeiro filme a ser apresentado na competição nacional do Festival de Gramado 2018. O filme foi bem recebido pelo público, mas sem grandes entusiasmos.

A estrutura de A Voz do Silêncio é de uma história coral, isto é, com vários personagens, cujas tramas correm paralelas ao longo do tempo, ou se entrelaçam. Em geral, são histórias tristes, de gente sofrida, que luta para manter o emprego, ou segurar relacionamentos falidos, ou dar outro sentido à vida, ou enfrentam doenças graves ou terminais.

A grande estrela do elenco é a atriz Marieta Severo, num papel muito difícil. Ela faz a mulher alcoólatra, com problemas de saúde e uma ferida na perna que teima em não fechar. Tem um filho que expulsou de casa depois de descobrir que ele é portador de HIV. O rapaz finge que viaja pelo mundo (e envia postais para a mãe), mas, na verdade, labuta num call center. A filha (Stephanie de Jongh) aspira a ser cantora mas atua numa boate fazendo pole dance.

Há outros personagens igualmente difíceis. Claudio Jaborandy é um sushiman submetido a um patrão brutal (Nicola Siri), que também é porteiro de edifício e tenta estudar à noite. Há um radialista que se descobre vítima de um câncer terminal. Sua filha é uma corretora de imóveis ameaçada de demissão caso não feche uma venda até o final da semana. Marat Descartes faz um dependente sexual cuja jovem esposa agoniza num hospital. 

Ufa!

É problema demais. Mas é, de acordo com o diretor (e concordo com ele), um retrato realista de uma cidade como São Paulo, situada num país chamado Brasil.

Esse retrato se oferece sob a forma de um afresco, pulando de um personagem a outro e de uma história a outra, até que o quadro geral vai sendo formado diante da vista do espectador. Mas demora a acontecer.

“É mesmo um filme pensado como um prato cozinhado a fogo lento”, admite o diretor.

Quando ao tom sombrio, ele confessa que tem inclinação para o lado melancólico da vida. “25 anos de análise não me fizeram mais otimista. E, vendo a nossa condição atual, não vejo espaço para muita efusão”, diz.

De fato. E a apresentação do filme foi exemplo disso. Um dos produtores se manifestou no palco com um “Lula livre” e ouviu como resposta uma manifestação dividida da platéia no Palácio dos Festivais. Parte aplaudiu e parte vaiou. Houve trocas de insultos entre os oponentes. Isto é Brasil. O nosso, o atual, e só um idiota pode ser otimista em situações como esta.

André falou também da complicação de montar um longa com histórias paralelas, “uma costura difícil, que requer atenção”, diz.

Além disso, “A maioria dos personagens são inspiradas em pessoas reais. O que une tudo é que tudo é pessimista mesmo”.

Como amarração do filme, a lua vermelha surgida com o eclipse lunar. E sob essa lua, o cotidiano sofrido dos personagens. Sobre eles, Marieta Severo conta que ouviu de um cinéfilo no café da manhã da pousada onde está hospedada. Ele disse: “Como tem poesia o filme, e poesia dura”, disse o rapaz. Diz a atriz: “Não é pessimismo, é realismo. Eu quando vou a São Paulo acho maravilhoso, vou ao circuito cultural. Um ano beleza. Mas não é esta a cidade do filme. Ele vai falar do lado B, D, E de São Paulo”.

Marieta comenta também da obrigatoriedade de ser feliz. “A gente vê fotos antigas, todo mundo sério. Hoje, em qualquer selfie, as pessoas arreganham os dentes, é obrigatório”. O dever de ser feliz. “Minha personagem não é apenas uma mãe culpada por ter rejeitado um filho, ela própria é doente, tem uma patologia. Ela é delirante. Patologia psíquica mesmo”, diz.

A Voz do Silêncio tem esse tom obscuro, mas encontra alguns laivos de esperança no final. Nada de happy ending, mas pelo menos aquele “raggio di sole” que os produtores de Fellini imploravam ao mestre.

Entre laços esgarçados pelo cotidiano, na luta pela vida, o filme reserva esse fio de esperança ao altruísmo, a essa adormecida capacidade das pessoas de se dedicarem umas às outras.

Isso anda bastante esquecido, para dizer a verdade.