Gramado 2015. Venecia, a notte brava cubana
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Gramado 2015. Venecia, a notte brava cubana

Luiz Zanin Oricchio

13 Agosto 2015 | 10h53

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O festival tem seguido seu rumo, inexorável. Venecia, de Cuba, e Presos, da Costa Rica foram mais dois latinos apresentados na mostra competitiva.

Venecia é do diretor Enrique (Kiki) Alvarez, que conheci, muitos anos atrás, na Rússia, quando eu era júri de um festival e ele concorria com La Ola (A Onda). Ele não sabe (e talvez jamais venha a saber) que defendi seu filme na ocasião para o prêmio principal. Mas fui voto isolado. Me parecia (lembro vagamente de La Ola) uma interessante reflexão sobre o dilema cubano entre ficar e partir, quase um mantra das atitudes dos habitantes em relação a seu país. Hoje isso talvez seja passado. Com a reaproximação com os Estados Unidos, a revolução pode estar fechando um ciclo. Não sabemos o que virá pela frente. Mas podemos desconfiar.

De qualquer forma, Venecia já reflete outras vertentes de Cuba, outros sentimentos. Como disse um crítico, entusiasmado com o filme, “Venecia nos mostra outra Cuba, diferente da que nos habituamos a ver”. Talvez. E que Cuba é esta? A de três garotas, cabeleireiras, que, depois de receberem seu pagamento, resolvem sair para comprar roupas. Uma coisa leva a outra. Tomam uns tragos, começam a trocar confidências e resolvem sair para uma balada. Afundam na noite de Havana. Ao amanhecer, esgotadas, meio amassadas  e com uns trocados nas bolsinhas, se espantam: “Como é possível gastar tanto dinheiro numa só noite?” É quase uma reflexão sobre o desperdício, numa sociedade que aprendeu a reformar carros dos anos 1950 e na qual as carências têm de ser dribladas do dia-a-dia.

Claro que este é um aspecto. Outro, é a liberdade sexual, o álcool, a festa. Nada disso foi extinto pela revolução. A sensualidade sempre foi um traço exibido pelos cubanos. E visto como vitalidade e não como entrave. Por isso se falava do parentesco entre Cuba e Brasil, ou, pelo menos, a parte tropical do Brasil. Cuba e a exuberância, Cuba e o prazer. A longa noite de loucuras das garotas Monica, Violeta e Mayelín tem a ver com tudo isso, agora mostrado pelo ponto de vista feminino. A “notte brava” (para evocar o grande filme de Mauro Bolognini, roteiro de Pasolini) das meninas tem relação com tudo isso. E com a aspiração de libertação que uma noite de farras, ilusoriamente, fornece. Daí o bode e a ressaca da manhã. Encerrada, na Notte Brava de Bolognini com uma epifania. Falta esta a Venecia.

Kiki intuiu o todo mas não encontrou a metáfora correta para expressá-lo. Mas o filme é interessante e tem garra. O filme é veloz, despudorado, usa muito a câmea na mão e às vezes parece um documentário. Tudo isso conta a seu favor.