Gramado 2015. Que Horas Ela Volta? e as panelas que batem
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Gramado 2015. Que Horas Ela Volta? e as panelas que batem

Luiz Zanin Oricchio

08 de agosto de 2015 | 17h27

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1) Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, foi muito bem recebido pelo público do Festival de Gramado. As pessoas riam e certamente havia emoção na sala. O filme passou fora de concurso.
2) Nota-se que Anna buscou fazer um filme simples, porém de muitas camadas. É o mais difícil. Na entrevista, ela disse que queria fazer um filme que fosse entendido pela arrumadeira de sua casa. Acho que conseguiu. Com isso, e mais a presença de Regina Casé (que não veio a Gramado) no papel principal, talvez se repita o sucesso de público que já está tendo em alguns países da Europa, Itália e França, em especial.
3) Entre outras coisas, Que Horas Ela Volta? é sobre a maternidade. O título se refere à pergunta que fazem os filhos pelas mães que estão fora, trabalhando. Angústia feminina de conciliar o inconciliável no mundo capitalista – exercício da função materna e mercado cada vez mais exigente. Nesse sentido, olha para uma utopia, ou, pelo menos, para uma posição social bastante difícil de ser alcançada – aquela em que seres humanos são respeitados como tais. Novamente: não é da natureza do capitalismo fazer esse tipo de concessão.
4) Mas, claro, Que Horas Ela Volta? é também muitas outras coisas. Uma em especial: a maneira como pequenos movimentos tectônicos abalam a estrutura de classes da sociedade brasileira. Não se trata de revolução, repito. Apenas de pequenos movimentos e do impacto que causam numa sociedade de hierarquia rígida escondida sob o manto da informalidade. Revoltas de classe média e panelas que batem têm a ver com essa percepção de que o direito do outro usurpa o meu direito. Longo é o caminho da sociedade brasileira rumo a uma estrutura mais igualitária.
5) Na história, a chegada de Jéssica (Camila Márdila) à casa onde trabalha e vive sua mãe, Val (Regina Casé) é esse elemento perturbador da hierarquia. A garota simplesmente “não sabe qual é o seu lugar”, signo da perturbação dessa lei não escrita das distâncias sociais. Jéssica incomoda a dona da casa (Karine Teles), mas perturba, em especial, a própria mãe, a doméstica Val, que, na luta pela sobrevivência, introjetou o código da submissão e o conhece à perfeição. Sabe que a filha é uma infratora da lei não escrita.
6) Por outro lado, o filme, sem ser lulista ou petista, descreve esse novo Brasil (em via de retrocesso) em que uma jovem humilde pode chegar à Universidade ou uma empregada doméstica pode mandar buscar o neto no Nordeste por avião. Infrações ao código. Para a classe média, as vagas nos melhores cursos “são nossas”. Os aeroportos e aeronaves também são “nossos”. Daí o incômodo. Daí as panelas, habilmente manipuladas por interesses outros.
7) Que Horas Ela Volta? é o ressurgimento, por outras vias, do filme político brasileiro. Político porque fala de estruturas de poder e, eventualmente, as questiona. Já vem se consagrando junto à crítica a tríade formada por O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, Casa Grande, de Filipe Gamarano Barbosa e, agora, Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. O Brasil refletindo sobre si mesmo e sobre como as estruturas de poder agem e podem ser detectadas no ambiente doméstico. Este, até mesmo em sua arquitetura, é reflexo do legado da nossa desigualdade.