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Gramado 2015. Notas sobre filmes e outras coisas

Luiz Zanin Oricchio

09 de agosto de 2015 | 11h18

GRAMADO – 1) O concorrente mexicano En La Estancia é fronteiriço entre documentário e ficção. Filme interessante, mostra um documentarista realizando um filme sobre um ancião que habita uma cidade fantasma. Há várias delas no México, restos de minerações que foram abandonadas. O clima onírico, intencional, garante um dos atores, evoca Juan Rulfo, de Pedro Páramo, um dos maiores livros de todos os tempos, embora seja um dos menores em extensão. A cidade parece Comala, que saiu da imaginação de Rulfo, e nela habita o velho Jesus Vallejo e seu filho, Juan Diego, caçula de uma prole de onze. Veremos depois, num segundo tempo, como o documentarista regressa à região, desta vez acompanhado da esposa, grávida. Há um desfecho inesperado e, talvez, pouco convincente. Mas o filme é não apenas interessante, como disse acima, vai além disso. Será preciso revê-lo. Foi muito prejudicado na noite de abertura. A sessão ficou às moscas pelo cansaço do público. A sessão terminou 1h10 da manhã.
2) O outro concorrente latino foi o uruguaio Zanahoria, de Enrique Bichichio, que diz ter se baseado em caso real para escrever o roteiro. A história é a de um ex-integrante da inteligência das Forças Armadas na época da ditadura, Walter (Cézar Troncoso), que se apresenta a um jornalista como portador de informações bombásticas sobre desaparecidos e torturados. O país vive em transe, à véspera da eleição que levaria o esquerdista Tabaré Vasquez ao poder em 2004. O filme tem qualidades. Evolui à maneira de bom um thriller político. A fotografia é lavada e de pouca inspiração. Mas o filme tem pique. Em especial por Troncoso que, com o cabelo penteado para trás, parece um sósia de Antonio Banderas. Ah, sim, “zanahoria” quer dizer cenoura, o que tem tudo a ver com o que acontece na trama. Esta envolve jornalismo, a busca frenética pelo furo, que às vezes contamina a profissão, e a paranoia comum em países submetidos a ditaduras recentes.
3) O primeiro concorrente brasileiro, Introdução à Música do Sangue, de Luiz Carlos Lacerda, traz um argumento inédito do grande escritor mineiro Lúcio Cardoso (de Crônica da Casa Assassinada). A história mostra um casal de idade (Ney Latorraca e Bete Mendes), vivendo numa casa praticamente isolada da civilização, sem luz elétrica e com seu cotidiano tedioso. Uma garota, de posição incerta na família, Isabel (Greta Antoine) mora com eles e faz os serviços da casa. O filme tem momentos bonitos, é quase uma pastoral de poucos diálogos, muito silêncio e mistério entre os personagens. Infelizmente, quando surgem os diálogos, estes parecem bastante artificiais. As atuações são irregulares e, pelo menos uma cena (crucial), é bastante ruim. Pena que contamine todo o resto do filme, que tem boas qualidades. No cinema, a parte compromete o todo.
4) O homenageado da noite foi o múltiplo Daniel Filho, ator, diretor, produtor, homem poderoso da Globo. Tem talento. Quase tanto quanto arrogância, dizem os que o conhecem de perto. Ganhou o troféu Cidade de Gramado. E aplausos protocolares.
5) Os curtas até agora estão fracos. Um pequeno destaque para Ba, de Leandro Tadashi, história do garoto Bruno, cujo cotidiano é afetado pela chegada a avó idosa, que vem morar com a família. Sua simplicidade chega a ser comovente. Muro é bem intencionado porém ingênuo.