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Gramado 2015. ‘Errante’, o cinema como descoberta do mundo

Luiz Zanin Oricchio

12 Agosto 2015 | 10h19

 

No Festival de Gramado, os competidores são exibidos à noite, no Palácio dos Festivais. No mesmo local, à tarde, há a Mostra Gaúcha, com curtas e longas locais. Os curtas têm uma competição à parte (venceu O Corpo, que ainda não vi, e será exibido na mostra principal na quinta). Os longas são exibidos fora de concurso. Entre eles, há uma joia rara – Errante, de Gustavo Spolidoro, talentoso diretor gaúcho ligado ao cinema independente.
Inspirado no documentário Os Catadores e Eu (Les Glaneurs et la Glaneuse), da francesa Agnès Varda, que lhe havia sido recomendado por Jean-Claude Bernardet, Spolidoro decide colocar-se, ele e sua câmera, na estrada à procura de personagens e do mundo. O resultado é Errante, filme livre, poético, inspirado, que confia no acaso como modo de (re)construção da realidade.
Spolidoro monta sua “narrativa” de maneira aleatória. Assim, por exemplo, ao filmar um velhinho que parece deambular a esmo no centro de Porto Alegre, percebe uma moça que escreve em seu caderninho. Ao abordá-la, descobre que é uma francesa em viagem pela América Latina, e que está de passagem pela cidade a caminho de Santa Maria, em companhia de um brasileiro que conheceu no Chile.
O diretor e sua câmera embarcam na aventura. Em Santa Maria, Spolidoro fica sabendo que perto de lá existe um sítio arqueológico onde se descobriu uma ossada de dinossauro. E lá vai ele, parando pelo caminho, entrevistando velhos jogadores de bocha, errando de lá para cá.
O fim do caminho é o Carnaval carioca, o sambódromo, onde consegue filmar sambistas, mas também  três legítimos cães vira-latas passeando por ali após o desfile. O filme tem esse ritmo de cão de rua. Lúdico, desocupado, leve, em busca de alguma coisa que não se sabe bem o que é. Mas (no fundo) sabemos: é um exercício de liberdade.
Errante merecia estar na mostra principal.