As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Gramado 2015. A força do cinema da Colômbia

Luiz Zanin Oricchio

11 de agosto de 2015 | 11h06

 

Talvez por decisão da curadoria, a sessão de ontem dividiu-se entre o tom soturno da primeira parte e a busca de luz, na segunda.

De fato, tanto o curta paulista Enquanto o Sangue Coloria a Noite, eu Olhava as Estrelas quanto o longa colombiano Ella se definem pelo negativo. Já o curta matogrossense S2 pauta-se pelo registro cômico e o longa brasiliense O Último Cine Drive-in busca a emoção e os bons sentimentos para dialogar com o público.

Em meio a tudo isso, o melhor foi o colombiano Ella, de Libia Stella Gómez Díaz, mostrando que o cinema do país está mesmo em alta. Pelo menos o cinema que vem chegando aos festivais e mostras internacionais. Há vitalidade nele. E dor. Neste, temos um casal de idosos, Alcides e Georgina, que vivem na precariedade. Georgina tem uma altercação com um vizinho violento, um açougueiro que cria duas meninas, e logo em seguida cai enferma. Morre. E o marido passa a ter como único objetivo dar à mulher um enterro digno. Seu mantra passa a ser: “Ela viveu com dignidade; deve ser enterrada com dignidade”.

Libia adota um preto e branco em que cores aparecem de maneira ocasional, como nos peixinhos de Copolla em O Selvagem da Motocicleta. Em Ella, pode ser uma pintura azul que Georgina gosta de passar nos olhos. Ou uns brinquinhos presenteados à sobrinha do viúvo Alcides e que terão importância no destino da trama. Ou o sangue derramado na calçada no habituais conflitos de rua do miserável e violento bairro de Bogotá.

O filme oferece contornos dignos de Buñuel, com as cenas de Alcides carregando o corpo da mulher no carrinho que usa para recolher material reciclável. É patético, é dolorosa a maneira como perambula com o cadáver coberto por papelão por empresas funerárias e delegacias de polícia tentando viabilizar o enterro digno de Georgina.

Ella é uma experiência forte. Nem sempre convincente. Nem sempre calibrada no tom justo, mas ainda assim considerável.

Já O Último Cine Drive-in, de Iberê Carvalho, aposta numa simplicidade exemplar. A história é a de Marlombrando (vejam só), jovem operário que tem a mãe doente e precisa reatar relações com o pai, Almeida. Este, interpretado pelo grande Othon Bastos, é o proprietário do tal cinema, em franca decadência. O filme aposta nesses termos simples, o relacionamento entre pai e filho, o amor pela mãe doente, e o amor também pelo cinema, nessa modalidade do drive-in que fez grande sucesso de público em certa época e depois acabou.

O tom nostálgico fala mais do passadismo do projeto que a liberdade de diálogos entre alguns personagens. Não creio que haja muito mais a dizer sobre O Último Cine Drive-in a não ser que é um filme tão simpático quanto inócuo.

Os curtas continuam devendo. S2 se constrói sobre as relações sexuais em tempos de redes sociais. Não tem graça alguma. Enquanto o Sangue Coloria a Noite… parece sofrer pela pretensão iniciante de dar conta de grandes assuntos quando ainda não se tem domínio do instrumento e nem a maturidade para abordá-los. Monta-se sobre duas cenas paralelas, o coronel tetraplégico e seu filho, que sofre bullying na escola. Não se coordenam entre si.