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Gomorra

Luiz Zanin Oricchio

15 de dezembro de 2008 | 10h25

Gomorra foi visto, e com razão, como sopro renovador para o cansado cinema italiano. Sem se definir entre o intimismo ou a retomada do político, este cinema, que já foi o melhor do mundo, parece ter encontrado via fértil nessa discussão – a seco – sobre a presença da máfia na sociedade. Ao contrário de outros diretores, Matteo Garrone livra-se de qualquer estereótipo facilitador para se aproximar dos personagens. Os membros da Camorra (a “máfia” napolitana) não são vistos como seres simpáticos e um tanto folclóricos, como em tantos outros filmes. Em Gomorra são assassinos frios, tipos humanos ameaçadores e repulsivos. Ao que parece, essa escolha é feita em consonância com o livro original, que valeu ao escritor Roberto Saviano a ameaça de que seria executado “até no Natal”, segundo a pia ameaça dos bandidos.

Gomorra ganhou o Prêmio Especial do Júri, em Cannes, e foi indicado pela Itália para disputar uma das vagas de finalista ao Oscar de produção estrangeira. Já foi indicado ao Globo de Ouro e tem estréia no Brasil prometida para o dia 19.

É duro como madeira de lei. E deve provocar comparações com Fernando Meirelles. Isso porque, como o brasileiro, também o italiano discute o fascínio que o crime desperta na infância e juventude carentes. Mas as aproximações param por aí. Estilisticamente, são bem diferentes. Se Cidade de Deus vale-se de estética ritmada, cheia de ginga e recursos de efeito, Gomorra trabalha tudo a seco. Não faz nenhuma concessão ao prazer do espectador e recusa-se a embelezar qualquer cena. À maneira coral, trabalha com cinco histórias diferentes, dispersas por vários personagens – de imigrantes explorados a garotos que se julgam espertos e terminam muito mal. O retrato da Itália que dele emerge passa longe de qualquer cartão-postal.

(Caderno 2, 12/12/08)

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