Godard 8.0
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Godard 8.0

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2010 | 11h23

Não basta dizer que Jean-Luc Godard chega aos 80 anos com um trabalho tão ousado e contemporâneo de si mesmo como este Film Socialisme. É preciso também reconhecer que ele nunca deixou de ser assim ao longo de uma carreira que começou (no longa-metragem) com Acossado e prossegue até hoje com o mesmo e surpreendente vigor.

Desde Acossado (1960), Godard não deixou de provocar esse fascínio contínuo sobre seu público e também sobre outros realizadores, em especial entre aqueles que cultivam o radicalismo, não como defeito, mas como a virtude dos que têm a coragem de ir à raiz das coisas. A placidez do caminho do meio não interessa a Godard, ou a quem o ama.

Para se ter ideia desse fascínio, um único depoimento basta, o do grande Bernardo Bertolucci, diretor de obras-primas como Antes da Revolução, O Último Tango em Paris e O Conformista. Jovem iniciante na época em que os diretores da nouvelle vague já eram famosos, Bertolucci dizia: “Eu me deixaria matar ou mataria alguém para filmar um único plano como Jean-Luc Godard”.

De onde vem essa força? Talvez dessa atitude mesma de tomar as coisas pela raiz, na verticalidade, o que conduziu a sua carreira por caminhos diferentes dos seus então amigos da nouvelle vague. Não cabe fazer comparações, pois tanto Chabrol como Truffaut, Rohmer e Rivette são brilhantes cada qual à sua maneira. Essa foi uma geração privilegiada. Mas, se existe um inventor entre eles, esse é Godard. Não apenas porque foi o mais formidável criador de linguagens cinematográficas, mas porque mostrou sempre essa disposição de agarrar o seu tempo pela garganta, por assim dizer.

Enfrentar o presente com seus desafios e asperezas – isso é algo um tanto diferente daquela atitude meio blasé, cinefílica de direita, do início da nouvelle vague. O Godard engagé vê o maio de 1968 um ano antes, em A Chinesa. Quando seus parceiros começam a se comprazer com as delícias do êxito, milita no coletivo Dziga Vertov, junto com Gorin. É a época do maoísmo intenso, xiita, empedernido, que faz com que muitos companheiros de estrada dele se afastem. Era o tempo, sempre ele, com suas exigências e contradições – e Godard embarca sempre no tempo, seu melhor aliado.

Vai produzindo essa obra de filmes inesperados, mas que são, vistos de certo ângulo, como capítulos de um único e mesmo filme. As relações amorosas, a Guerra da Argélia, a prostituição, Kosovo, a crise européia – tudo está lá em obras tão diferentes como aparentadas, que se interpenetram e se comentam entre si, como Uma Mulher É Uma Mulher, Os Carabineiros, Viver a Vida, Para Sempre Mozart, Film Socialisme. Um zapping no conjunto da obra nos diz isto: eis aí um inventor permanente de si mesmo, nunca alheio aos temas do mundo, nunca distante da variabilidade das técnicas (“Godard e o vídeo” poderia ser um capítulo à parte) e da reutilização das formas. Não é por acaso que Carlos Reichenbach, um dos mais inventivos diretores contemporâneos, o tem em tão alta conta. Não é por nada que Bernardo Bertolucci o reverencia. Não é gratuito que Quentin Tarantino batize sua produtora com o título de um dos filmes de Godard, Band à Part.

Por tudo isso, Godard é também um dos cineastas mais influentes do século. Não se compreende o nosso maior cineasta, Glauber Rocha, sem o conhecimento da cultura nordestina, sem Os Sertões e Guimarães Rosa. Mas não se entende também o seu trabalho sem referi-lo a Brecht, a Eisenstein, a Buñuel e…a Godard. A tal ponto que o crítico da revista Positif, Michel Ciment, amigo particular de Glauber, lhe manda uma carta reprovando O Leão de Sete Cabeças (1970) e dizendo que achava “a influência de Godard nefasta” (Cartas ao Mundo, Cia das Letras, org. Ivana Bentes, p. 370).

Ciment podia até estar errado neste caso. Mas acerta ao sugerir que o poder de influência de Godard é tão forte que exige cuidado: imitá-lo significa expor-se ao ridículo.

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