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Globo de Ouro 2007

Luiz Zanin Oricchio

17 Janeiro 2007 | 15h16

Matéria minha no Caderno 2 sobre a premiação dos correspondentes estrangeiros em LA.

Parece bastante interessante na premiação do Globo de Ouro deste ano o descolamento entre os troféus de melhor filme, Babel, e direção, que foi para Martin Scorsese com Os Infiltrados. Ora, em geral aceita-se que o filme mais bem dirigido seja o melhor. Mas aqui tivemos uma divisão. Como se um não pudesse sobrepujar completamente o outro. Uma clara decisão distributiva, mais comum em júris pouco numerosos que em colégios eleitorais mais amplos como o do Globo de Ouro.

Isso significa também, se uma decisão dessas pode ser interpretada, que os dois filmes se equivalem, embora Babel seja um tanto superior. De qualquer forma, são dois filmes que explicitam, de maneira enérgica, um certo estágio do desacerto no mundo. Os Infiltrados num plano mais local, focalizando a violência intrínseca da sociedade americana. Babel, projetando essa idéia em esfera mais ampla, a do mundo globalizado. Talvez tenha sido essa tendência mais generalizante que tenha inclinado a balança a seu favor.

O fato é que a divisão entre os dois seguiu o script que se previa – eram de fato os dois filmes ‘dramáticos’ mais bem cotados em concurso. De resto, a premiação investiu em algumas escolhas óbvias, e necessárias. Por exemplo, como evitar o prêmio de melhor atriz a Helen Mirren depois do seu desempenho em A Rainha, de Stephen Frears? Ou como evitar que Meryl Streep ficasse como melhor atriz na categoria comédia ou musical depois de vê-la no superestimado porém delicioso O Diabo Veste Prada?

A Rainha ficou também com roteiro, de autoria de Peter Morgan, e nada poderia ser mais justo, uma vez que a carpintaria dramática desse filme que fala do relacionamento entre Elizabeth II e Tony Blair por ocasião da morte da lady Di depende muito do texto. E de suas sutilezas, muito bem urdidas por Morgan. Mas, claro, quem olha para a tela tende a atribuir todos os méritos a Helen Mirren, e não por acaso. Ela está tão bem que se aproxima até fisicamente da figura real – nos dois sentidos do termo. Seu gestual é o de uma rainha, e seu modo de falar idem. Não havia a menor dúvida de que o prêmio iria para ela, mas a lembrança ao roteirista dá dimensão mais justa ao projeto orquestrado por Frears.

Outras bolas também eram cantadas com antecedência e por isso não surpreendeu a boa premiação de Dreamgirls, ainda inédito no Brasil, nas categorias de melhor comédia ou musical, e ainda os troféus ao elenco coadjuvante – Jennifer Hudson e Eddie Murphy. O melhor papel dramático ficou com outro ator negro, Forest Whitaker, de O Último Rei da Escócia, que também ainda não estreou por aqui. Whitaker derrotou Leonardo DiCaprio, que concorria por dois filmes, Os Infiltrados e Diamante de Sangue, e por isso era visto por algumas fontes como provável ganhador. O que se viu foi o contrário: a dupla indicação acabou por enfraquecer a ambas. Já o prêmio de animação para Cars era a chamada pule de dez, no jargão turfístico: não havia como errar. E o prêmio de melhor ator de comédia ou musical para Sacha Baron Cohen, de Borat, se não surpreende quem conhece o filme, não deixa de ser marcante. Em especial por ter derrotado o badalado Johnny Depp de Piratas do Caribe, e Will Ferrell, irreconhecível de tão bom em Mais Estranho Que a Ficção.

Por fim, a premiação de Cartas de Iwo Jima, de Clint Eastwood, como melhor filme de língua não inglesa, se justifica por ser falado em japonês quase o tempo todo. E sua qualidade artística está acima de qualquer discussão – é um filmaço, junto com seu par A Conquista da Honra. Mas se os votantes do Globo de Ouro queriam prestar atenção ao que se faz fora dos Estados Unidos teriam a maravilhosa opção de Volver, um grand cru de Pedro Almodóvar. Ou mesmo a fantasia de O Labirinto do Fauno, que agrada a tantos. Ver Clint e Spielberg no palco, recebendo esse prêmio em tese destinado aos estrangeiros, não causa a melhor das impressões.

Lista completa dos vencedores em cinema

Melhor filme – drama
Babel

Melhor diretor
Martin Scorsese (Os Infiltrados)

Melhor atriz de filme drama
Helen Mirren (A Rainha)

Melhor ator de filme drama
Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)

Melhor filme – Comédia ou Musical
Dreamgirls – Em Busca de um Sonho

Melhor atriz em comédia ou musical
Meryl Streep (O Diabo Veste Prada)

Melhor ator em comédia ou musical
Sacha Cohen (Borat)

Melhor atriz coadjuvante
Jennifer Hudson (Dreamgirls – Em Busca de um Sonho)

Melhor ator coadjuvante
Eddie Murphy (Dreamgirls – Em Busca da Fama)

Melhor filme de animação
Carros

Melhor filme em língua estrangeira
Cartas de Iwo Jima (EUA/Japão)

Melhor roteiro
A Rainha (Peter Morgan)

Melhor trilha sonora original
Alexandre Desplat (The Painted Veil)

Melhor música original
The Song Of The Heart (Happy Feet – O Pingüim)

Prêmio Cecil B. DeMille
Warren Beatty