Glauber Rocha, 80 anos
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Glauber Rocha, 80 anos

Glauber Rocha, o nosso cineasta maior, pensador e polemista, estaria fazendo 80 anos hoje. Sua energia, seu inconformismo político e sua lucidez nos fazem muita falta

Luiz Zanin Oricchio

14 de março de 2019 | 10h27

É sempre tentador especular o que diria ou faria tal e qual personagem morto diante de fatos contemporâneos. O Brasil de hoje tem sido lembrado como uma “terra em transe”, expressão tornada corrente graças à obra-prima de Glauber Rocha, que hoje faria 80 anos. Glauber nasceu em Vitória da Conquista em 14 de março de 1939 e morreu em 1981, aos 42 anos, deixando obra impressionante. Seu baú não parece ter fundo e dele sempre saem mais documentos. Escrevia, lia e polemizava sem parar.

Hoje talvez não haja mesmo artista como Glauber, capaz de interferir, tanto com sua arte como com sua palavra, na circunstância do seu tempo. Tempo que, como se sabe, foi da esperança em um Brasil mais justo, nas eras JK e Jango, ao desespero da ditadura civil-militar instaurada em 1964 com um golpe de Estado.

Há, nesse sentido, um arco que vai de Barravento (1962) a Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967) até seu legado, A Idade da Terra (1981). Os dois primeiros falam da esperança revolucionária e da necessidade de o povo tomar consciência de si e de sua importância no processo histórico. Terra em Transe é a digestão difícil do golpe, em todos seus aspectos. E A Idade da Terra, tido como incompreensível por uns e profético por outros, desce às raízes da nação na tentativa de encontrar saídas para o impasse de um regime caduco que se recusava a morrer.

As obras-primas, claro, são Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe. Estão na história do cinema e não apenas do cinema brasileiro.

Mas há sempre que se voltar para os outros títulos da obra, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1968), Cabeças Cortadas (1970), O Leão de Sete Cabeças, Câncer (1972), Claro (1975) e o incontornável A Idade da Terra, seu “testamento”, como se costuma dizer da obra final de um gênio, mesmo que ele não tivesse esse plano.

Em muitos sentidos, Glauber é ainda um enigma. Sua obra está aí para ser analisada e de novo coberta de palavras na tentativa, vã, de esgotar-lhe o significado. Cada filme tem sua especificidade. Mas desconfio que cada um deles seja uma tentativa de mergulhar na tragédia histórica do 3º Mundo e extrair-lhe algum significado. Dar sentido à História, este pesadelo do qual não conseguimos despertar, como dizia James Joyce. 

O que estaria pensando Glauber diante do atual caos brasileiro? Ninguém sabe ao certo. Mas acredito que estaria, como sempre, cheio de energia, desesperado e lúcido ao mesmo tempo. Nos faz muita falta.

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