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Glauber, pensador político

Luiz Zanin Oricchio

20 de maio de 2011 | 10h44

Glauber Rocha é o homenageado do 3º Congresso Internacional de Jornalismo Cultural e tem três dos seus filmes programados no Cine Sesc, em miniciclo que começa amanhã. São eles a sua obra-prima, Terra em Transe, seu trabalho mais conhecido no exterior, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, e um dos mais inusitados, o enigmático Leão de Sete Cabeças.

Glauber não é alvo de homenagem de um congresso de jornalistas por acaso – ele próprio militou na imprensa de maneira regular na juventude e continuou a fazê-lo, de modo esporádico, ao longo de toda a sua existência. É dele uma frase que deveria ser emoldurada e meditada por todo canditado a profissional da imprensa: “O jornalismo é uma verdadeira literatura moderna, mas o jornalista vive se reprimindo, literalmente tem medo de soltar a veia literária porque há as convenções do jornalismo. Deveria ser o contrário”.

Não por acaso, um dos personagens de Terra em Transe é o jornalista Paulo Martins (Jardel Filho). O intelectual é um dos pólos, ao lado do tirano (Paulo Autran) e do político populista (José Lewgoy), para pensar o absurdo Brasil que emergia após o golpe de 1964. O filme, de 1967, é a tentativa de digestão artística desse fato.

Dragão da Maldade, de 1969, marca a retomada do personagem de Antonio das Mortes (Maurício do Vale), que surgira em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964). Numa chave, digamos, mais popular, Glauber, no entanto, mais uma vez explora as contradições do sertão brasileiro – uma figuração alegórica do País, visto em conjunto.

Já feito no exílio, Dragão da Maldade (1970) é uma figuração das relações de exploração do Terceiro Mundo pelos países colonialistas. Um filme intrincado, exuberante, hoje muito mais claro do que na época do seu lançamento.

Gláuber, mais do que um cineasta, era um pensador político. Pensava a política através do embate com a forma cinematográfica.

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