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Glauber em Veneza

Luiz Zanin Oricchio

08 de setembro de 2007 | 07h12

VENEZA – Vi ontem o documentário Anabasys, de Joel Pizzini e Paloma Rocha, sobre o filme A Idade da Terra, de Glauber. Agora de manhã, há pouco, acabo de rever o próprio A Idade da Terra, em cópia digital nova, deslumbrante, cores recuperadas como talvez eu só tenha visto na estréia do filme.

Se me permitem uma recordação pessoal: vi a Idade da Terra, pela primeira vez, em 1980, ou talvez 1981, no Cine Belas Artes. Aconteceu uma coisa engraçada. Depois de meia hora de projeção, alguém deu um grito dentro da sala: “Eu não sou obrigado a gostar do Glauber Rocha!”. E saiu. Depois fiquei sabendo que era um amigo meu. Eu estava com outros amigos, vimos o filme até o fim, e, como se fazia naquele tempo, fomos discutir o filme no antigo Riviera, bar que ficava do outro lado da Avenida Consolação.

Mas como discutir A Idade da Terra se era um filme que colocava abaixo qualquer critério cinematográfico conhecido? Era impossível compará-lo com qualquer referência e se fosse o caso de aproximá-lo seria apenas de Terra em Transe – quer dizer, uma comparação de Glauber com Glauber. A Idade da Terra é, como são os filmes de Glauber, uma obra descontínua, paroxística e paradoxal, com momentos de exasperação e outros de pura poesia cinematográfica. Um filme que pode ter sido muito pensado, mas, nota-se, foi sendo construído, de improviso, à medida em que ia sendo rodado. É filme para despertar reações extremas; ama-se ou detesta-se.

Eu vou dizer uma coisa para vocês: eu amo, porque é o tipo do filme que me provoca uma profunda sensação de liberdade mental. A mesma que sinto, por exemplo, vendo alguns filmes de Fellini. São obras que nos libertam, obras de alma liberária. Claro, como dizia o meu amigo de 1980, ninguém é obrigado a gostar de Glauber, e nem de nada ou de ninguém. Mas quem o recusa de antemão, por puro preconceito, não sabe o que está perdendo. Acho que continua fundamental para entender essa caótica maravilha chamada Brasil.

Mas isso tudo para dizer que são bastante compreensíveis as reações ao filme no Festival de Veneza de 1980. Ele caiu como um artefato nuclear no acomodado cenário da burguesia européia. É um atentado ao bom gosto e à racionalidade. A própria figura de Glauber, com seu jeito desgarrado, completava o quadro de afronta. E, quando protestou contra a premiação, segundo ele coisa da CIA e das majors americanas, em pleno Hotel Excelsior (onde um café custa 8 euros), provocou um dos grandes escândalos da história deste festival. Completado em seguida, quando organizou uma passeata e saiu em protesto pelas ruas do Lido. Seguido, se diz, pelos garçons do hotel, que estavam em greve.

Grande Glauber. Tudo isso está documentado no belo filme de Pizzini e Paloma que, além do mais, funciona como linha auxiliar de compreensão da obra e do pensamento de Glauber. Um pensamento que funcionava por paradoxos e, por isso mesmo, é tão produtivo até hoje. Especialmente hoje, nesse nosso tempinho acomodado e disciplinado. Careta, em uma palavra. Ele nos falta.

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