‘Glauber, Claro’ venceu o 15º Fest Aruanda
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‘Glauber, Claro’ venceu o 15º Fest Aruanda

Luiz Zanin Oricchio

17 de dezembro de 2020 | 14h16

Não teve prá ninguém e o excelente documentário Glauber, Claro, de César Meneghetti, foi o vencedor da 15ª edição do festival paraibano. Também “pule de 10” era King Kong em Assunção, de Camilo Cavalcante, ganhador da Mostra Sob o Céu Nordestino, reservada às produções da região NE. King Kong já fora o vencedor do Festival de Gramado. 

Não há o que discutir sobre as duas premiações principais. Glauber, Claro é uma instigante imersão no processo criativo de Glauber Rocha, e também no ambiente cultural em que se deu sua produção no exílio. No caso, esta produção italiana, Claro, que não ocupa lugar lá muito central ou de estima na análise de sua obra. Mas vale muito a pena ser resgatado. Entre outras qualidades, este documentário serve também como estímulo para uma revisão dessa obra. 

King Kong, na prática, dispensa maiores considerações. Vencedor também do Festival de Gramado, essa história crepuscular de um pistoleiro (Andrade Júnior, que morreu sem ver seu trabalho na tela), é tão bem construída, tem uma fatura cinematográfica tão sofisticada, que, por contraste, nos leva a pensar: por que, à esta altura do campeonato e do século 21, ainda somos obrigados, às vezes, a ver filmes tão mal pensados, mal rodados e mal finalizados? Nada a ver com qualquer fetiche formalista. Mas apenas uma consideração talvez redundante sobre o profissionalismo necessário à realização cinematográfica. Competência indispensável em qualquer campo, aliás, pintura, escultura, literatura, jornalismo, e, por que não?, crítica de cinema.  

Outros premiados. Gostei também de Codinome: Clemente, de Isa Albuquerque. O personagem, o ex-guerrilheiro da ALN Carlos Eugênio Paz, é uma figura e tanto. Não renega seu passado na luta armada, considerando-a necessária no contexto da época. Paz entende que legou um exemplo aos pósteros, o da legitimidade da resistência violenta à violência de uma ditadura. Dos documentários sobre os anos de chumbo, este é especialmente revelador. Dialoga com o melhor de todos eles, Cidadão Boilese, de Chaim Litewski. Carlos Eugênio (autor do livro-memória Viagem à Luta Armada) foi o guerrilheiro incumbido de justiçar o dinamarquês Henning Boilesen, financiador da Operação Bandeirantes, órgão de repressão aos opositores do regime. Codinome: Clemente ganhou também o prêmio da crítica, escolha que fala em favor dos nossos colegas. 

Achei o documentário Nheengatu, de José Barahona e Damião Lopes, bastante interessante. Inova ao abordar o relacionamento entre indígenas e colonizadores pelo viés linguístico. Às vezes perde o foco. Mesmo assim, continua sendo bom. 

Chico Rei Entre Nós, de Joyce Prado, trabalha muito bem a questão do mito e de quanto ele pode ser importante numa luta de libertação. No caso, o personagem trazido para trabalhar nas minas de Ouro Preto, que teria comprado a própria liberdade e se transformado em importante contestador da escravidão. Não se sabe ao certo se Chico Rei teve existência real ou foi uma criação popular. O que ninguém duvida é do poder de sua presença no imaginário coletivo.

Como tantos outros festivais neste ano de pandemia e descaso governamental, também o Aruanda teve de se reinventar. Em bom português, teve de se virar. Foi e está sendo difícil para todo mundo, e o cinema não é exceção. 

Mesmo repetindo alguns filmes de outros festivais, e usando o expediente de premiar “personalidades” por falta de atores premiáveis (já que a mostra principal era apenas documental), ainda assim, o Aruanda apresentou bom nível de competição. 

Neste ano estratégico de 2020, comemorou como se deve os 60 anos do clássico do cinema que lhe dá o nome. Aruanda, de Linduarte Noronha, surgiu no horizonte cinematográfico brasileiro de 1960 como um raio em céu azul, ponto de referência capaz de orientar o novo cinema que estava nascendo e ainda não tinha contorno definido. Abriu caminhos para o Cinema Novo e firmou-se como um clássico brasileiro. 

Para marcar a data, o festival promoveu uma exibição de Aruanda e uma live histórica sobre o filme, com dois debatedores excepcionais. Um, o cineasta Vladimir Carvalho, que está nos créditos e fez parte da equipe de filmagem de Aruanda. Outro, o diretor Jorge Bodanzky, que trouxe um depoimento fundamental sobre a influência de Aruanda em toda uma geração de inventores do cinema brasileiro. Vladimir lembrou da feitura de Aruanda, dos colaboradores da obra e do clima cultural em que ele nasce. Bodanzky falou da repercussão do filme e, também, do ambiente onde ocorre sua ressonância criativa, no sudeste do país. 

Fica o conselho: quem não viu, procure por esta live no Youtube. Não vai se arrepender. 

 

PREMIADOS

 

Mostra Competitiva Nacional de Curtas e Longas-Metragens

Longas

Melhor Filme + R$ 8 mil: “Glauber, Claro” de César Meneghetti

Melhor Direção: José Barahona por “Nheengatu”

Melhor Roteiro: César Meneghetti por “Glauber, Claro”

Melhor Personagem Feminino: Kátia Silvério por “Chico Rei Entre Nós”, de Joyce Prado

Melhor Personagem Masculino: Glauber Rocha por “Glauber, Claro”

Melhor Fotografia: Eugenio Barcelloni por “Glauber, Claro”

Melhor Desenho de Som: José Barahona e Damião Lopes, por “Nheengatu”

Melhor Edição: Willem Dias por “Glauber, Claro”

Melhor Trilha Sonora: Sérgio Pererê por “Chico Rei Entre Nós”

Melhor direção de arte: O júri não atribuiu prêmio de direção de arte

Melhor longa segundo o júri popular – Codinome Clemente, de Isa Albuquerque

Curtas

Melhor Curta + R$ 4 mil: “A Profundidade da Areia, de Hugo Reis e “A Pontualidade dos Tubarões”, de Raysa Prado

Melhor Direção: Bruna Barros e Bruna Castro pelo filme “À Beira do Planeta Mainha Soprou a Gente”

Melhor Roteiro: Hugo Reis “A Profundidade da Areia”

Melhor Desenho de Som: Hugo Reis, por “A Profundidade da Areia”

Melhor Atriz: Zezita Matos por “Remoinho”

Melhor Ator: André Morais por “Pranto”

Melhor Fotografia: Igor Pontini por “A Profundidade da Areia”

Melhor Edição: Bruna Barros e Bruna Castro por “À Beira do Planeta Mainha Soprou a Gente”

Melhor Trilha Sonora: João Simas, Thierry Castelo, Jales Carvalho, Viviane Vazzi, Pedro e André Lucap por “Rasga Mortalha”

Melhor Direção de Arte: Raul Luna por “Rasga Mortalha”

Melhor Figurino: O Júri não atribuiu prêmio de Figurino

Melhor Curta segundo o júri popular: Recôncavo, de Pedro Henrique Chaves

 

Menções Honrosas

Elenco de “A Profundidade da Areia”

Filme “Mãtãnãg – A Encantada”, de Shawara Maxakali e Charles Bicalho

 

Mostra Sob o Céu Nordestino

Longas

Melhor Filme + R$ 5mil – King Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante

Melhor direção – Camilo Cavalcante, por King Kong en Asunción

Roteiro – Camilo Cavalcante, por King Kong en Asunción

Atriz – Rejane Arruda, por As Órbitas da Água

Ator – Antonio Saboia, por As Órbitas da Água

Fotografia – Camilo Soares, por King Kong en Asunción

Edição – Petrus Cariry e Firmino Holanda, por A Jangada de Welles

Desenho de Som – João Martins e Juliana Gurgel, por Swingueira

Trilha sonora – Shaman Herrera, por King Kong en Asunción

Direção de Arte – Helder Nóbrega, por Aponta pra Fé – Ou Todas as Músicas da Minha Vida

Figurino – Luján Riquelme, Lia González e Paulo Ricardo, por King Kong en Asunción

Melhor longa Sob o Céu Nordestino segundo o júri popular: King Kong en Asunción, de Camilo Cavalcante

 

Curtas:

Melhor curta + R$ 3 mil – Remoinho, de Tiago A. Neves

Melhor direção – Tiago A. Neves , por Remoinho

Roteiro – Eduardo Varandas Araruna, por Cura-me

Atriz – Ingrid Trigueiro, por Cura-me

Ator – André Morais, por Pranto

Fotografia – Tiago A. Neves, por Reinado Imaginário

Melhor edição – João Paulo Palitot, por Makinaria

Desenho de Som – Edson Lemos, por Pranto

Melhor trilha sonora – Paulo Ramon, por A Pontualidade dos Tubarões

Melhor direção de arte – Ju Escorel, por Pranto

Figurino – JR Nessim, por E Agora Você?

Melhor curta Sob o Céu Nordestino segundo o Júri Popular – Makinaria, de Igor Tadeu

 

 

Prêmio Júri Abraccine

O Júri da Abraccine, formando por Marcelo Milici, Suzana Uchôa Itiberê e Bertrand Lira, concede o prêmio ao curta-metragem A Profundidade da Areia, de Hugo Reis, do Espírito Santo, pela abordagem fantástica de um tema urgente, com significativo trabalho de som e ousadia narrativa.

O vencedor do prêmio de melhor longa-metragem é Codinome Clemente, de Isa Albuquerque, do Rio de Janeiro, pelo resgate de um personagem ímpar que abraçou a luta armada em um dos momentos mais tenebrosos da história recente do Brasil.

Melhor Longa: Codinome Clemente, de Isa Albuquerque

Melhor Curta: A Profundidade da Areia, de Hugo Reis

 

Prêmio Laboratório Aruanda/Energisa de Projetos – Susanna Lira

Primeiro Lugar + R$ 2 mil – Anna Diniz – projeto: Feminicídio na Paraíba

Segundo Lugar – Maycon de Carvalho Sousa – projeto: Fosséis

Terceiro Lugar – Bruna Dias e Carine Fiúza – projeto: Um Oceano Inteiro

 

Prêmio Mistika – Serviços de produção em serviços de conformação,

correção de cor, finalização, aplicação de letreiros, masterização

de DCP e arquivos digitais – validade por 1 ano.

20 mil – Melhor Longa Nacional e Melhor Longa Sob a Mostra Nordestino

5 mil – Melhor Curta Nacional e Melhor Curta Sob a Mostra Nordestina

 

 

Mostra TV Universitária – júri formado pela produtora Lucia Caus, jornalista Ana Lúcia Medeiros e professor da UFPB Alberto Ricardo Pessoa.

 

Documentário – Em Palcos Televisivos, de Fabiano Diniz – TV UFPB

Reportagem – O júri considerou que os trabalhos não atingiram a pontuação necessária para a premiação.

Programa de TV – Entremeios, de Danielle Huebra – TV UFPB

Interprograma – Conheça a história do eclipse que colocou o Brasil no centro da ciência mundial, de Ruth Andrade – TVU Rio Grande do Norte.

Prêmios paraibanos

Video clipe – Terezinha, Banda Permeia/Lyric Vídeo – Ingsson Vasconcelos e Poet, Banda Sky Boon/Lyric Vídeo – Yuri da Costa.

Tcc – Urbano Sertão, João Victor Torres.

 

 

 

 

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