Gigantes do futebol brasileiro
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Gigantes do futebol brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

01 de agosto de 2011 | 08h51

Dizem que a bola nasceu quadrada na Inglaterra e virou redonda no Brasil. Isso para falar de um futebol que incorporou regras e esquemas europeus e, através de um espírito muito seu, transformou-o em alguma coisa que se pode chamar de arte sem qualquer impropriedade. O que seria do jogo da bola sem os grandes craques? Algo insípido e rotineiro. Em homenagem a eles, os jornalistas João Máximo e Marcos de Castro deram a esses jogadores excepcionais a narrativa que merecem. Gigantes do Futebol Brasileiro é composto por 21 perfis de atletas que marcaram época. Nesta segunda edição, vão de Arthur Friedenreich a Ronaldo. Incluindo, é claro, o mágico Garrincha e o maior de todos, Pelé.

A 1ª edição de Gigantes do Futebol Brasileiro saiu em 1965. Parava em Pelé, o último craque perfilado, cuja carreira ainda estava em pleno desenvolvimento. Na época, o livro foi criticado por duas omissões graves: excluía o extraordinário Ademir de Menezes e, em especial, Didi, o mago do meio campo, inventor da jogada conhecida como “folha seca”, considerado o melhor jogador da Copa de 1958.

Nesta segunda edição, o livro paga suas dívidas e traz os inspirados perfis de Ademir e Didi. Este último, escrito com tanto zelo e sincera admiração, que se transforma num dos melhores, talvez o melhor capítulo de todo o livro. Além de saldar suas contas no vermelho, a nova versão de Gigantes do Futebol Brasileiro traz capítulos sobre jogadores mais contemporâneos, além do já citado Ronaldo, que encerrou carreira há poucos meses: Gérson, Rivelino, Tostão, Falcão, Zico e Romário.

A eles se juntam craques presentes na edição de 1965, além dos já citados Friedenreich e Ademir: Fausto, Domingos da Guia, Leônidas, Tim, Romeu, Zizinho, Heleno, Danilo e Nilton Santos. Total: 21 gigantes, divididos de maneira equânime entre Marcos de Castro e João Máxico. Cada um deles assina dez perfis. Como a conta não dá redonda, o texto sobre Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol” é escrito pelos dois. Na primeira edição, o prefácio era de autoria de Paulo Mendes Campos. Texto mantido na segunda, que ganha reforço de peso com a apresentação assinada pelo colorado Luis Fernando Verissimo. Um timaço.

A atualização de Gigantes do Futebol Brasileiro nos traz uma sensação de familiaridade. Afinal, muitos de nós vimos jogar os últimos dos perfilados. Ronaldo há pouco defendia o Corinthians, seu último clube, depois de carreira estupenda na seleção e em clubes do exterior. Pendurou as chuteiras apenas este ano e agora se dedica ao gerenciamento de imagem de jogadores expressivos como Neymar, do Santos. Muitos nos lembramos dos gols que marcou pela seleção na Copa de 2002, em especial os dois decisivos contra a Alemanha, na final. Tivemos também Ronaldo por perto ao ajudar o seu último clube a conquistar o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil em 2009. É imagem recente.

Como até certo ponto são Gérson, Rivellino e Tostão, companheiros de Pelé na conquista do Tricampeonato no México, em 1970.  Naquela Copa, a transmissão direta dos jogos pela TV chegava pela primeira vez ao Brasil e a população, oprimida por uma ditadura militar, podia acompanhar ao vivo as façanhas da “seleção canarinho”, como dizia um famoso locutor da época. Fomos todos contemporâneos da “patada atômica” de Rivellino, dos lançamentos de Gérson, da inteligência de Tostão.

Ainda mais recentes são Falcão e Zico, dois dos principais nomes da seleção de 1982, o escrete de Telê Santana, que jogou muita bola na Espanha, mas foi eliminado pela Itália numa partida que ficou conhecida como a “tragédia de Sarriá” – nome do estádio no qual o Brasil caiu diante de Paolo Rossi, autor dos três gols da sua seleção.

Contemporâneo também é Romário, grande responsável pela conquista de 1994 nos Estados Unidos, que tirou o Brasil da longa fila de 24 anos de títulos mundiais. Até pouco tempo atrás, o “baixinho”, hoje deputado federal, desfilava nos gramados, infernizando zagueiros com seu estilo minimalista e fatal.

Todos esses vimos jogar. Sabemos aquilatar o que valiam e no que eram diferentes dos outros. Mas, e dos que não vimos? O que falar deles? Torcedores de meia idade podem ter pegado, por exemplo, o final da era Garrincha. Se não moravam no Rio, é provável que tenham acompanhado a carreira do mago das pernas tortas apenas através do rádio. “Ouviram” Garrincha jogar. E, nem por isso, vibraram menos com ele, em especial durante as Copas de 1958 e 1962, quando os jogos eram acompanhados apenas pelas ondas do rádio e, dada as efusões nacionalistas dos locutores, tornavam-se verdadeiras provas de esteira ergométrica para cardíacos.

O que dizer então dos craques do passado remoto, dos primórdios do futebol? Esses só existem através das narrativas. E, é preciso dizer mais uma vez, nem por isso eles se tornam menos familiares aos aficionados do esporte. Nomes como Friedenreich, Fausto, Domingos, Heleno e outros tantos existem para nós filtrados pela lenda que deixaram. Tornaram-se mitos e, como tais, presentes em nossa própria história de torcedores de futebol, mesmo que tenham morrido antes de nascermos.

Ao entrarmos para o mundo do futebol, na infância, herdamos de imediato a história desses grandes craques, uma espécie de sedimento da tradição, que passa de pai para filho e constrói o Brasil como país do futebol. Daí a importância das grandes narrativas, como estas propostas por Marcos Castro e João Máximo.

Elas resgatam do passado, por exemplo, o pioneirismo de Friedenreich, craque mestiço, filho de mãe negra e pai alemão, mulato de olhos claros que disfarçava o cabelo rebelde sobre uma camada de brilhantina em tempos racistas. Fried, “El Tigre”, foi o primeiro gênio registrado do futebol brasileiro, o primeiro rei, atuando ainda na fase pré-profissional. A viagem no tempo nos traz de volta a figura de Domingos da Guia, um dos raros zagueiros a entrar no panteão (a maioria é composta de atacantes e de meias, o que é sintomático). O Divino Mestre, Domingos, que matava os torcedores de medo com seus dribles curtos aplicados dentro da grande área. Recordamos as vidas cheias de glória e tragédia de Fausto, a Maravilha Negra, morto por uma tuberculose, e Heleno, o craque-galã, que acabou seus dias num sanatório de doenças mentais, atingido pela sífilis.

São nossos heróis, se os vimos jogar ou se apenas ouvimos falar deles, em como foram grandes em seu tempo, o legado que deixaram, o fim que tiveram. Fazem parte da nossa história de torcedores. Da nossa vida. Por isso, no prefácio de 1965, Paulo Mendes Campos tenta desvendar o prazer que a leitura de Gigantes do Futebol Brasileiro havia lhe proporcionado. E encontra resposta tão singela quanto luminosa: “Marcos de Castro e João Máximo escreveram um livro sobre mim. Ou sobre você, leitor.” É isso mesmo.

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