Os 3 Efes
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Os 3 Efes

Luiz Zanin Oricchio

07 de dezembro de 2007 | 16h24

Carlos Gerbase estréia novo filme hoje, 3 Efes. Qual a novidade? Além do filme em si, o modo de exibição. Entra nos cinemas, mas também na internet (portal Terra), passa na TV (Canal Brasil, às 20h) e a gaúcha TV Com, e o DVD já está disponível. A estratégia é ocupar espaços em várias frentes, para ver se consegue amplicar as janelas de exibição dos filmes nacionais. Se vai dar certo, ainda vamos ver.

cama

A história é bem contemporânea e retrata o cotidiano de personagens urbanos e suas dificuldades. Sissi (Cris Kessler) é a estudante que sustenta o pai desempregado e tem uma amiga, Giane (Ana Maria Mainieri), que se vira rodando bolsinha. Prostituta de luxo, com programas marcados pela internet. Há também uma dona de casa entediada, Martina (Carla Cassapo), casada com um publicitário, Rogério (Leonardo Machado), que, para não ser despedido, precisa dormir com a chefe, um bofe. E por aí vai. Mundo urbano, cruel e competitivo, com vidas bailando em torno de sexo e do dinheiro como costuma ser nas grandes cidades. Uma história interessante, divertida, com personagens bem desenhados, e com os quais o público jovem talvez possa se identificar.

De acordo com a sinopse que justifica o título, a humanidade é movida por três apetites: a fome, o sexo, e o fasma. O que é “fasma”? Descubra vendo o filme. Veja mais informações no site do filme.

sutia

Abaixo, uma entrevista que fiz com Gerbase e ficou bem interessante. Confiram.

Blog – gostaria que você me falasse um pouco sobre a distribuição desse filme. Até onde sei, é um formato inovador, em TV, internet, cinema e DVD. Como surgiu essa idéia?

Gerbase – “3 Efes” é um filme de baixo custo (100 mil reais, contando comercialização e distribuição), que foi escrito de modo que os limites técnicos e orçamentários não prejudicassem o essencial do cinema, que é contar uma boa história com a linguagem audiovisual. Quando o filme estava ficando pronto, comecei a pensar no seu lançamento, e, como sempre, o primeiro objetivo é o mercado das salas.

Sem cópias em película (o “transfer” custaria 100 mil reais, o mesmo que o filme inteiro custou), a alternativa (excelente, na minha opinião, depois de ver o filme ontem numa tela grande) é a RAIN. Para isso, também foi fundamental o apoio do Adhemar, do Unibanco Artplex, que garantiu as suas salas. Aí, uma pequena novidade: eu disse que queria apenas uma semana em cartaz, independente da bilheteria. Não vou ficar triste quando o filme sair, e a distribuidora (a própria Casa de Cinema) sabe o quanto vai gastar e concentrar a divulgação nessa semana.

O segundo passo foi a internet. Conversei com a Sandra Pecis e Pedro Rolla, do Terra, que abraçaram a idéia quando o filme nem estava todo pronto. Foi fundamental. A partir daí, eu sabia que esse lançamento seria diferente, que as tais “janelas” estavam indo pro espaço. Liguei pro Canal Brasil e acertei a venda do filme em 5 minutos (tô falando sério). Na verdade, valeu muito o nome da Casa de Cinema e toda a nossa trajetória. Um dia depois, reunião na RBS-TV, com a Alice Urbin e o Gilberto Perin (também parceiros da Casa de longa data). Acertamos a exibição do filme na TV-COM (sinal aberto, em UHF, em todo o Rio Grande do Sul).

O último passo foi óbvio: lançar o DVD ao mesmo tempo. Aí teríamos uma revolução completa. Editamos os extras (que são muitos e estão bem divertidos) e já negociamos a distribuição. A partir do dia 7, o filme está nascendo em todos esses espaços, em vez de começar a morrer no circuito exclusivo das salas.

Mas é bom dizer que eu adoro ir ao cinema. Não tem lugar melhor pra ver um filme: tela grande, som ótimo, sala escura. E acho que essas mídias vão se apoiar mutuamente. O espectador, contudo, é quem decide onde ver, como ver e quando ver. A gente manda no filme, ele manda na maneira de assistir ao filme.

Blog – Há muitos anos, o Cacá Diegues fez uma experiência lançando um filme primeiro na TV e depois nos cinemas, o Dias Melhores Virão. Deu pouco público nas salas. Isso não te assusta?

Gerbase – Nem um pouco. O meu pequeno filme autoral não teria chance nenhuma num lançamento tradicional. Pelo contrário: são as mídias alternativas que estão proporcionando que o filme chegue nas salas com excelente qualidade. Espero que a bilheteria das salas cubra os custos que tivemos para colocá-lo lá. Se der lucro, melhor ainda. Mas, com esse lançamento simultâneo, tenho muito mais segurança pra pensar no futuro do filme.

Blog – Você acha que as janelas de lançamento convencionais não estão dando conta do fluxo da produção? Ou o motivo para esse multilançamento é outro?

Gerbase – O mundo mudou. As janelas são coisa do passado. O público decide onde ver e como ver. Se a distribuição tradicional não mudar, a circulação informal continuará a crescer. Temos que ter agilidade, qualidade e bom preço para oferecer produtos audiovisuais num mercado global e digitalizado. O cinema morreu. Viva o cinema.

Blog – Até que ponto a estética do filme foi determinada pelo tipo de lançamento comercial diferenciado? Diga que público você deseja atingir.

Gerbase – As tecnologias digitais, de modo geral, tornaram possível a realização deste filme. Desde a captação (com uma câmera Panasonic mini-DV que trabalha com pouca luz), passando pela edição (em ilha Final-Cut), até chegar à distribuição nas salas de exibição (no sistema Rain, que é totalmente digital). Se eu tivesse que captar, finalizar ou exibir em película, o filme simplesmente não existiria. Além disso, só com uma câmera digital é possível trabalhar com uma equipe tão pequena (8 pessoas no set) e filmar tão rápido (20 dias, no total). Tudo isso tem conseqüências estéticas. Mas o que o público tem a ver com isso? Acho que muito pouco. O público não quer saber se o filme foi feito em 35mm, 16mm, HD ou DV. Ele quer se divertir, se emocionar, acompanhar uma boa história. Tudo como antes. Não fiz um filme trash ou mal cuidado. A montagem é de Giba Assis Brasil, o som é 5.1, a fotografia aproveita muito a luz da própria cidade e das locações. A revolução está na possibilidade de circular o filme em espaços diferentes, tirá-lo desse “tribunal de final de semana”, que pode ser interessante para os blockbusters, mas é uma armadilha para o cinema brasileiro.

Blog – Sobre o filme em si, ele trabalha com a idéia de uma certa “naturalização” da prostituição, tratando o tema sem qualquer preconceito ou moralismo. O que se vê no 3 Fs são mulheres de classe média se prostituindo. É o efeito Bruna Surfistinha?

Gerbase – Não li a Bruna Surfistinha. Pesquisei em “Psicanálise da prostituição”, de Maryse Choisy, “Cliente, o outro lado da prostituição”, de Ilnar de Souza, “Mulheres da Vila”, de Aparecida Fonseca Moraes, e em muitos sites na internet, em especial o “GP Guia”, que é tremendamente didático sobre esse universo da prostituição nas grandes cidades brasileiras. Quanto à “naturalização”, só posso dizer que tentei ser realista no roteiro. Numa sessão de pré-estréia para a Secretaria de Saúde do RS (nossa parceira na divulgação do filme), as prostitutas que estavam presentes na sessão elogiaram a trama e disseram que se identificaram em vários momentos.

Blog – A idéia dos três Fs parece bem engenhosa. Lembra coisas do Jorge Furtado também. Até que ponto existe uma estética marca registrada da Casa de Cinema de Porto Alegre. Vocês discutem muito em grupo essas idéias?

Gerbase – Acho que, apesar de trabalharmos juntos, escrevermos juntos e termos projetos coletivos, a minha estética e a do Jorge são muito distantes. A teoria dos “3 Efes” é do professor Anibal Damasceno Ferreira, meu primeiro professor de cinema “teórico”. O primeiro mestre “prático” foi Nelson Nadotti, meu colega na PUC. Como sempre, discutimos o roteiro do “3 Efes” em conjunto na Casa, todos deram suas opiniões, e, a partir daí, tomei minhas decisões. Certamente, num filme do Jorge haveria menos cenas de sexo, menos nudez e menos palavrões. Neste “3 Efes” também tentei resgatar certas estratégias do tempo do super-8, em que o ator era mais importante que a posição da câmera. Nesse sentido, o filme é muito mais Nadotti que Furtado.

Blog – Uma vez discutindo cinema com o Jorge ele disse que o público de TV não pode ser desprezado, como é por um certo cinema brasileiro. A tua tentativa é atingir esse público também? Em que medida você está disposto a sacrificar idéias ou complexidades para atingir um público mais amplo?

Gerbase – Nunca sacrificaria uma boa idéia, mas todas as boas idéias, para serem realmente boas, são compreendidas pelo espectador médio. O espectador não pode ser tratado como um gênio, mas ele também não é um idiota. O “3 Efes”, apesar de bem humorado, trata de questões realmente sérias na vida de todos nós. Falar de um conceito como “fasma”, uma palavra que todo mundo vai procurar se existe no dicionário, é falar da nossa capacidade de linguagem, falar daquilo que nos faz humanos. Espero que o filme seja bem claro sobre isso.

Blog – Como será possível medir o público de um filme lançado em quatro mídias distintas? Existe uma metodologia para isso?

Gerbase – Não tenho a menor idéia. Talvez somar os “page-views” no Terra, com o ibope dos dois canais de TV, com o número de DVDs já distribuídos, mais os espectadores das salas. Mas seria como somar coelhos com rabanetes. O fundamental é que essa conta não se encerra no primeiro final de semana, vai se estender por meses. O que sei é que, considerando os resultados das vendas para todas essas mídias, o investimento no filme já está pago, e agora as empresas produtoras podem pensar em vendas internacionais, outros mercados de salas (já tive propostas de dois cineclubes), outras vendas para TV, e, o melhor de tudo, em outros filmes

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: