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Vernant e Bento Prado: gente boa indo embora…

Luiz Zanin Oricchio

12 Janeiro 2007 | 14h12

As mortes se sucedem e até tenho pudor em comentá-las aqui. Mas, enfim, por paradoxo, tudo isso faz parte da vida. Duas delas não posso deixar passar em branco, pelas dívidas intelectuais que tenho com os dois: refiro-me ao francês Jean-Pierre Vernant e ao brasileiro Bento Prado Jr. Ambos da área de filosofia, que estudei na USP nos idos dos anos 70.

Não conheci Vernant pessoalmente, mas através dos seus livros ele era nome popular na velha Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas. Nos referíamos a ele com aquela familiaridade bem típica do brasileiro: “Você leu o que o Vernant escreveu? Viu o que ele disse sobre isso ou aquilo?” Como se fosse um amigo, com quem convivêssemos no botequim. Quem nos apresentara Vernant era a Marilena Chauí, com certeza uma das melhores mestras que tive em minha vida. E através dela, pudemos nos aproximar da cultura e da mitologia dos gregos, com a mediação das obras de Vernant. Ele tinha exatamente essa qualidade: a de mostrar como deveríamos de fato considerar o berço da cultura ocidental – a Grécia – como algo de familiar, próxima do nosso cotidiano, solidária das nossas preocupações, alegrias e angústias. Li e continuo a ler com prazer seus livros, a maioria dos quais traduzida para o português. Recomendo, sobretudo, Mito e Pensamento entre os Gregos, um pequeno grande volume. Mas há outro livro maravilhoso, editado aqui pela Edusp, Mito & Política, em que Vernant nos fala de sua trajetória, mostrando como foi possível conciliar o homem de ação (participou da Resistência durante a 2ª Guerra Mundial) e o homem de pensamento. E como não existe distinção séria entre a reflexão abstrata e o pensamento político, como às vezes parecem achar no Brasil.

Política também não esteve ausente da vida de Bento Prado Jr. e ele a sofreu na pele. Professor da USP, foi aposentado em 1969 pelo AI-5, exilou-se e, quando voltou, foi convidado a lecionar na Universidade de São Carlos. Por esses motivos, um desencontro temporal e as vicissitudes políticas de um país de 3º Mundo, não cheguei a ser aluno de Bento Prado, mas assisti a várias palestras ministradas por ele e mesas redondas das quais participou. Era também aquele tipo de professor que transformava saber em sabor, da estirpe de um Ruy Coelho e de outros poucos que conheci. Bento Prado era um estudioso do existencialismo e li vários dos seus textos sobre essa área da filosofia.

Um dia, surpreso, encontro um pequeno ensaio seu sobre futebol e literatura. Uma delícia de texto, de alguém que não se considerava acima de uma paixão popular dos brasileiros como o jogo da bola, falando com propriedade de um jogador de sua admiração, o grande Ademir da Guia. Assim era Bento Prado, atento às nuances da experiência humana, onde quer que ela ocorresse.