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Gena Rowlands em estado de graça

Luiz Zanin Oricchio

18 de fevereiro de 2007 | 09h55

O título do filme não é gratuito. John Cassavetes o chama de Uma Mulher sob Influência. Não é uma mulher ‘perturbada’, nem muito menos ‘louca’. Mabel, personagem interpretada por Gena Rowlands, não se enquadra muito na noção fácil de normalidade. Algo, nela, destoa do meio ambiente o tempo todo. Mas Cassavetes parece fazer questão de mostrar que seu comportamento, seus eventuais problemas, não podem ser vistos de maneira isolada em relação ao dia-a-dia. Em termos, Mabel não é uma ‘louca em si’, mas, se permitem a licença, uma ‘louca para os outros’. Seus problemas não estão nem em si mesma nem são determinados de maneira mecânica pelo ambiente. Colocam-se em relação. Mabel é personalíssima. Mas em outro lugar e tempo talvez fosse uma pessoa diferente. Talvez, porque o cinema de Cassavetes não é construído sobre certezas ou teorias prévias.

Não à toa Uma Mulher sob Influência é considerado um dos melhores filmes de John Cassavetes. Nele estão a intensidade da direção de Cassavetes, a liberdade com que o assunto é exposto e tratado, a entrega dos atores, a começar por Gena Rowlands, mulher do diretor. Ela e um Peter Falk também magnífico fazem o casal de classe média baixa, três filhos, que vive num mar de instabilidade e sensibilidade à flor da pele, cercado por crises latentes ou explícitas. Ele trabalha demais, ela se entedia, bebe, toma pílulas. Sai à noite sozinha e procura companhia masculina num bar. O marido volta, a vida continua à deriva, conclui-se que ela precisa de ajuda psiquiátrica, etc.

A disfunção, se existe, distribui-se democraticamente a todos e não se concentra apenas em Mabel, mas também em Nick (Peter Falk), nas sogras e outros parentes que infestam a casa, nos amigos, em todos e em toda parte. O interessante é a maneira como Cassavetes maneja o assunto. Por exemplo, fazendo um jantar de colegas de Nick transcorrer em tempo quase real para que o mal-estar com a presença exuberante de Mabel possa se impor.

A tensão sexual está em toda parte, e nunca se resolve. No ambiente meio bruto em que vive a família de Nick (Falk), ela se dilui em gracejos, olhares, insinuações. Mabel reina em meio a esse ambiente de alta temperatura, porém sempre latente. Cassavetes explora essa latência em tempos longos. Cortes mais econômicos e enquadramentos tradicionais eliminariam esse efeito que emerge da interpretação generosa de Gena Rowlands.

Generosa? Talvez a palavra fique aquém da intensidade sugerida pela presença de Gena. Entrega é o termo que define esse tipo de atuação de risco total. Atriz extraordinária, de beleza difícil de encontrar, Gena se presta a tudo nesse tipo de trabalho. Nem se pode dizer inteiramente que se submete à direção do marido, John. Muito do que de melhor existe nos filmes de Cassavetes provém do improviso. Os temas são colocados e, no interior dos quadros propostos, os atores se deixam ir. Constroem seus personagens no ato mesmo da criação. E às vezes os levam a limites imprevistos. Dificilmente, por exemplo, se pode conceber uma Mabel pensada racionalmente nas páginas de um roteiro. Ela ganha vida ali, no calor da hora, sob a febre da interpretação de Gena. Coisa parecida se pode dizer dos outros atores, em especial, neste caso, de Peter Falk. Quem o conhece apenas como o detetive Columbo vai ficar surpreso.

A linguagem com a qual o filme se articula é inovadora. Às vezes Cassavetes filma de costas um ator que está falando; outras insiste no superclose. Os enquadramentos nunca são banais, assim como os movimentos de câmera. O universo instável da classe média baixa americana aparece inscrito na linguagem do filme. É um cinema que merece de fato ser chamado de independente e não esse tipo de falcatrua que tem sido exibida por aí com esse rótulo comercial.

(SERVIÇO)Uma Mulher sob Influência(A Woman under the Influence, EUA/1974, 155 min.) – Drama. Dir. John Cassavetes. 12 anos. CineSesc – 15 h, 18 h, 21 h. Cotação: Ótimo

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