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Garotas do ABC e os fascistas

Luiz Zanin Oricchio

29 de setembro de 2007 | 11h23

Ficamos algum tempo discutindo (e ainda vamos voltar a esse debate) se Tropa de Elite é um filme de alma fascista ou não. Tema quente, porque leva a outro, mais incômodo: haverá algum tipo de sentimento fascista difuso, entranhado na “cordial” sociedade brasileira?

Vamos deixar o filme de José Padilha em paz, pelo menos por enquanto. Isso porque hoje, às 22h30, a TV Cultura exibe Garotas do ABC, de Carlos Reichenbach, que pode, justamente, trazer alguma luz à discussão.

Garotas do ABC é um filme interessante, e por mais de um motivo. Primeiro, porque mergulha no mundo operário, tão estranho ao cinema brasileiro contemporâneo (este se ocupa ou dos muito pobres ou da classe média, deixando também as “elites” intocadas). Já Reichenbach vai ao universo das trabalhadoras da indústria têxtil, tenta flagrar suas frustrações, alegrias e esperanças.

Coloca um segundo ingrediente na trama – grupos de camisas negras da periferia, que são racistas, hostilizam pobres e migrantes nordestinos. Seria o fascismo caboclo, endêmico na sociedade, se expressando através de suas ações, ritos e símbolos?

Aliás, lembro da indignação do diretor no Festival de Brasília, alguns anos atrás, quando lhe perguntaram pelo significado de um Sigma que aparece na tela em determinado momento. “Eu me recuso a ser avaliado por críticos de cinema tão ignorantes”, bradou, com toda a razão.

Enfim, são esses os dois mundos de Garotas do ABC, o das operárias e a dos fascistas de arrebalde, mundos que se tocam em mais de um momento, e aí está o paradoxo criativo proposto por Carlão Reichenbach.

É um belo filme, a ser revisto.

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