Garcia-Roza e o detetive Espinosa
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Garcia-Roza e o detetive Espinosa

Luiz Zanin Oricchio

12 Outubro 2015 | 10h53

chuva

 

O percurso de Luiz Alfredo Garcia-Roza é bastante singular. Professor universitário, autor de cultuados livros de teoria psicanalítica (um deles, Introdução à Metapsicologia Freudiana talvez seja um best-seller acadêmico), Garcia-Roza resolveu tornar-se escritor de ficção. Sua estreia ficcional foi com O Silêncio da Chuva, bastante bem acolhido e premiado. Desde então não parou mais. E introduziu na literatura policial brasileira um personagem marcante, o delegado Espinosa, que age em Copacabana e adjacências.

É possível que todo intelectual sonhe com a ficção. Escrevê-la pode ser experiência muito prazerosa. É clássica a história do grande ensaísta do cinema no Brasil, Paulo Emilio Salles Gomes, casado com a romancista Lygia Fagundes Telles. Já no outono da vida, numa das férias do casal, Paulo Emilio decidiu escrever um livro de ficção e, desde então, passou a recriminar a mulher: “Por que você não me avisou antes que escrever ficção era tão bom?”.

Essa tentação pode acometer a todos os que fazem da palavra seu ofício, mas poucos, como Garcia-Roza, teriam peito de fazer como ele. Ao invés de se tornar escritor de domingo, Garcia-Roza, aos 60 anos, operou um corte radical na vida. Largou tudo e foi ser escritor em tempo integral e com dedicação plena. Foi uma aposta no escuro, que se revelou vencedora. Passada a surpresa original, angariou leitores permanentes, sempre à espera de que saia o “novo Espinosa”. Um deles, Achados e Perdidos, foi adaptado para o cinema por José Joffily em 2006, tendo Antonio Fagundes no papel principal.

Há bons motivos para o sucesso de Espinosa: ele ocupa posição original na vasta galeria dos detetives literários. Dá-se como marco de invenção do gênero o conto Os Crimes da Rua Morgue, de Edgard Allan Poe, em 1841. Surgia então o detetive Dupin, que resolvia os crimes pela estrita capacidade dedutiva. Resolver crimes era questão de inteligência. Vários seguiram essa trilha: Sherlock Holmes, de Conan Doyle, e Hercule Poirot, de Agatha Christie, para ficar nos mais notórios. Nos Estados Unidos, Dashiell Hammett, com Sam Spade, e Raymond Chandler, com Philip Marlowe, dão ao detetive sua dimensão mais física, digamos; corpo a corpo com o crime, revelando desvãos escuros da sociedade e também a fragilidade do próprio investigador. Na França, a figura de Maigret, criação de Georges Simenon, humaniza de vez a figura do detetive.

Talvez seja nessa linha que Espinosa encontre seu sentido. Tal como o filósofo do qual herdou o nome, Espinosa mantém a serenidade. Seu universo é o bairro, à maneira de um personagem de Tolstoi. É inteligente, mas tem limites. Mantém um romance de dez anos com uma mulher livre. E mostra-se capaz de, em meio a uma investigação de assassinato, preocupar-se com o bem-estar de uma moradora de rua. Um humanista, enfim, perplexo em uma sociedade fora dos eixos.