Gaiarsa, 90 anos
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Gaiarsa, 90 anos

Luiz Zanin Oricchio

19 de agosto de 2010 | 14h18

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Fico sabendo, espantado, que o psiquiatra José Angelo Gaiarsa completa hoje 90 anos. Meu Deus (vou cometer uma banalidade), como o tempo passa! Posso ver a figura de Gaiarsa, tão emblemática dos anos 60 e 70, já então calvo, ar de senhor, mas um espírito de indomável juventude. Imagino que, em idade provecta, deve continuar desse jeito mesmo.

Gaiarsa foi um grande divulgador das idéias de Reich no Brasil. Com tudo que elas continham de subversivo, de libertário, de anticonvencional. Com esse arsenal teórico à disposição, e com um carisma prático fora de série, Gaiarsa tornou-se uma figura midiática, termo que não existia então. Vivia na TV, e todos o conheciam. Era gostoso vê-lo debater em público e chocar a todos (ou quase todos) com seu discurso contra a família convencional. Gaiarsa, sempre seguindo Reich, mas também suas próprias idéias, expunha o que havia de violento e de conservador na sagrada instituição da célula-mater da sociedade, como costumava ser chamada nos discursos oficiais daquela época.

É preciso contextualizar tudo isso. Ele falava num período de autoritarismo político e carolice generalizados, menos entre os jovens e, em particular, os jovens universitários, que eram contra o regime e contra a repressão de qualquer tipo. Falando a todos, ele falava um pouco por cada um de nós.

E esse discurso ressoava de modo particular na nossa faculdade, o Instituto de Psicologia da USP, que tinha seus postos avançados (Ana Verônica Mautner ensinava Reich, por exemplo), mas também contava com seus bastiões conservadores.
Um dia Gaiarsa foi fazer uma palestra na Psico-USP. Foi um sucesso. Pelo menos entre os estudantes. Ele já chegou ironizando, ao dizer que se sentia honrado em estar naquele “templo do saber”. E seguiu adiante, vergastando, como de hábito, instituições (a universitária inclusive), a polícia, o exército, o Estado de maneira geral e, sim claro, a boa e velha instituição familiar.

Como estará hoje Gaiarsa? Tomara que bem. Mas com que olhos verá esse nosso tempo tão careta, tão diferente daquele com o qual sonhou? Com o qual nós todos sonhamos?

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