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Gabo – 80 anos

Luiz Zanin Oricchio

06 Março 2007 | 19h57

Hoje Gabriel García Márquez completou 80 anos. Pensei que fosse haver uma overdose de noticiário a respeito nos segundos cadernos. Afinal, podemos até não lê-lo, mas o homem é Prêmio Nobel e esse tipo de distinção faz toda a diferença para o sujeito virar notícia. Mas nem isso parece ter sido capaz de motivar a nossa intelligentsia. Nem mesmo o fato de se comemorarem, também neste 2007, os 40 anos de publicação de Cem Anos de Solidão, a obra mais conhecida (e talvez a maior) do autor colombiano. Que, por sinal, ganhou o Nobel há exatos 25 anos. Quer dizer, efemérides não faltam.

É possível que os interesses tenham se deslocado das últimas décadas para cá. Antes, era através da literatura latino-americana, do tal do “realismo mágico”, que aprendíamos o que era viver e fazer parte deste continente em transe. Gabo teve papel fundamental nesse processo. Líamos sua obra, vivíamos a sua Macondo e lá convivíamos com os Buendia, e assim aprendíamos a nos relacionar com o fantástico real da América Latina, da qual fazíamos parte, embora, como brasileiros, com a tendência a vê-la um pouco de costas, como se dela nada quiséssemos saber.Gabo está em plena forma. Li seu romance mais recente, Memórias de Minhas Tristes Putas e o talento narrativo está lá, intacto.

Seu relacionamento com o cinema também foi dos mais interessantes e com um dado particular para nós, brasileiros. Seu parceiro constante foi Ruy Guerra, um dos mais importantes cineastas deste país, embora nascido em Moçambique. Guerra adaptou vários textos de Gabo (seu amigo pessoal) para as telas, como Cândida Erêndira, Me Alquilo para Soñar e Veneno da Madrugada, este tirado do romance La Mala Hora.

Vi de perto García Márquez várias vezes, a última em dezembro passado, em Havana. Falei com ele quando esteve no Brasil, uns dez anos atrás. Foi engraçado (visto de hoje). Estávamos no Rio e Gabo visitava o bonito prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, na rua 1º de março, no Centro. Nunca me esqueci. Ele andava como um grão-senhor, com sua camisa amarela de gringo, e éramos um bando de jornalistas a segui-lo, tentando extrair alguma declaração dele para que pudéssemos mandar para os nossos jornais. Ele, visivelmente entediado.

Até que por fim entramos em negociação. Ele se sentaria para conversar uma meia hora conosco e depois o deixaríamos em paz. Concordou, porque afinal também havia sido jornalista no início da vida e conhecia as agruras da profissão. Conversamos bastante e de maneira intensa, em especial sobre cinema, que era (e é) a minha área de maior interesse profissional. A meia hora prometida chegou a quase duas e acabou sendo uma tarde muito agradável, apesar do estresse inicial. Entre jornalistas, Gabo estava entre os seus pares. Ou pelo menos foi assim que sentimos.
Aliás, os textos jornalísticos completos de Gabo foram recentemente lançados no Brasil. Recomendo a todos que estejam se iniciando nessa profissão. São aulas de escrita e de capacidade de imersão numa situação, exemplos de como as ferramentas da ficção podem muito bem ser adaptadas para o exercício do jornalismo.

Aliás, alguns trabalhos jornalísticos de Gabo estão entre meus favoritos como Notícias de um Seqüestro, Relato de um Náufrago, Miguel Littin, Clandestino no Chile, que deu origem ao filme Actas Generales de Chile.
Mas claro, Cem Anos de Solidão é insuperável como “reportagem” fantástica da alma latina. É livro para se reler com prazer renovado.

Compreensivelmente, em sua terra Gabriel García Márquez está sendo homenageado como se deve. Por exemplo, o Festival de Cartagena está promovendo uma retrospectiva dos filmes adaptados dos seus romances.