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Futebol e carnaval

Luiz Zanin Oricchio

24 de fevereiro de 2009 | 09h19

Um amigo veio me dizer o seguinte: “Você, que gosta de futebol, não podia perder o desfile da Gaviões da Fiel na avenida.” Perguntei por quê, mas já meio que sabendo a resposta. “É que a escola une o carnaval e o futebol, e isso dá uma energia fantástica; a entrada no sambódromo é de arrepiar.” Acredito. Disse para ele que o time rival, o Palmeiras, também está representado no carnaval com a escola de samba da Mancha Verde. Quer dizer, as duas torcidas organizadas, dos dois times , viraram escolas de samba e passaram a ser rivais também na avenida.

Tudo isso é sabido, mais velho do que rascunho da Bíblia, como se dizia. Duas grandes paixões brasileiras, o carnaval e o futebol, juntas, na mesma manifestação. Só podia dar certo. Fiquei pensando em outra coisa também. Não inventamos nem o carnaval e nem o futebol. Ambos vieram da Europa. Viajaram para cá e foram assimilados. Transformados, numa operação que o velho Oswald de Andrade com certeza chamaria de antropofágica. Assimilamos o outro devorando-o. Digerimos o que nos é estranho e fazemos dele coisa nossa. Do mundo pelo avesso do carnaval europeu na idade média, inventamos uma ópera popular na avenida. Do jogo áspero dos britânicos, produzimos uma escola maleável na qual a arte do engano (o drible) mostra-se tão eficiente quanto uma jogada coletiva ensaiada à exaustão.

A transformação de torcidas em escolas de samba é um salto a mais nesse processo de assimilação e transformação. Que eu saiba, não tem paralelo no mundo. É mesmo, como disse o meu amigo, uma soma de grandes energias, uma espécie de dupla simbolização, em que as duas manifestações mais populares do País se complementam e respondem entre si. Dialogam, mas sob o signo da rivalidade. Que, como se sabe, muitas vezes pode ser estímulo, mas vira desastre quando sai do controle. Não por acaso, as duas agremiações desfilam no sambódromo em noites separadas, para não haver problemas no encontro entre as torcidas. Infelizmente, em dia de jogo de futebol isso não é possível. Porque as torcidas acabam se encontrando, mesmo que tudo se faça para separá-las. E, se elas não estão no jogo, é o espetáculo que se perde. Temos aí um impasse.

A CASA DO SANTOS

Bom público no Pacaembu para Santos x Botafogo, como era de se esperar. Raramente os jogos do Santos na capital decepcionam, por isso o presidente já está estudando mandar em São Paulo o jogo de volta pela Copa do Brasil contra o Rio Branco. Mais: pensa em realizar um jogo por mês na capital, como mandante. Parece, em princípio, uma boa ideia. O Santos tem grande torcida em São Paulo e nem sempre ela pode, ou parece disposta, a deslocar-se até a Baixada.

Jogar como mandante em São Paulo, ou em outros lugares, não é novidade na vida do Santos. Era rotina nos anos 60 e 70. Basta lembrar que mandou seus jogos pelo Mundial de Clubes no Maracanã, sendo acompanhado por públicos superiores a 100 mil pessoas. Outros tempos, em que todo mundo queria ver o Santos e o tinha como seu segundo time.

Se o Santos de hoje não tem nem de longe os atrativos da era de Coutinho, Pelé, Pepe & Cia, há ainda um problema adicional. O clube tem feito investimentos importantes na Vila Belmiro. Criou a instituição do sócio-torcedor e abriu camarotes de luxo para santistas afortunados. Como fica toda essa infraestrutura se a Vila for esvaziada? Os franceses têm um provérbio interessante: “Quem tem duas mulheres, perde sua alma. Quem tem duas casas, perde sua razão.”

(Coluna Boleiros, 24/2/09)

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