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Futebol e carnaval: tudo a ver

Luiz Zanin Oricchio

16 Fevereiro 2010 | 09h46

Amigos, antes do jogo Santos x Rio Claro, uma pessoa querida me disse: “Num domingo de carnaval não vai dar nem 5 mil pessoas no Pacaembu.” Foram 32 mil. 32 mil e uma – talvez essa uma fosse algum solitário torcedor do Rio Claro perdido lá no Paulo Machado de Carvalho. O resto da galera foi ver o Peixe de Neymar, Ganso & Robinho, o trio de ouro do time da Vila. Já faz alguns anos que o Santos joga em São Paulo durante o carnaval. Sempre com bons resultados. Mas, claro, o domingão agora foi excepcional, com Robinho começando uma partida pela primeira vez. Só isso já justifica o público.

De fato, não é preciso grande esforço de imaginação para explicar esse sucesso de bilheteria. É claro que a torcida santista da capital costuma prestigiar o time quando ele sobe a serra. Mas a presença do ídolo também fala por si. Tem sido assim com Ronaldo no Corinthians, com Adriano no Flamengo, etc. Quando o jogador conhecido volta a atuar entre nós, as bilheterias incham. E torcedor de futebol é como o de carnaval – quer ver brilho, purpurina e outras milongas na avenida. Quer beleza. Para isso se dá ao trabalho de sair de casa e pagar ingresso. Sem atração que justifique o esforço, sobram ao futebol os frequentadores de sempre do estádio – as torcidas organizadas e aficionados que vão a campo ver seu time esteja ele como estiver. Se quiser conquistar mais torcedores, os clubes têm de oferecer algo a mais. As purpurinas do futebol são os craques em campo. É simples assim. Para ter rotina, mais do mesmo, fica-se em casa. A ideia de que o torcedor vai sair do seu sofá para prestigiar o “bom e barato” só pode ter passado pela cabeça de uma diretoria provinciana como a do Palmeiras de alguns anos atrás. Torcedores e foliões querem é luxo. Quem gosta de pobreza é intelectual, dizia Joãosinho Trinta.

Para ser justo, aquela diretoria do Palmeiras apenas verbalizou o que outras pensam mas não falam, querendo enfiar times medíocres goela abaixo da torcida. O Santos hoje está badalado. Se ganhar algum título, mesmo que seja o Paulista, vira o time da moda. Mas até o ano passado, embora já contasse com alguns dos atuais astros, era time indigesto de ver jogar. Duro, travado, preguiçoso. Mudou. Os garotos soltaram-se e veio o Robinho como cereja no bolo. Dizem os colunistas que o Santos é o time que mais dá gosto de assistir. Qual o segredo? Tem craques e joga no ataque, em busca do gol.

Em todo caso, o futebol que dá mais prazer é aquele que se assemelha ao carnaval como expressão da alegria. Uma alegria que não vem de graça ou por obra do Divino. Sendo da folia ou não, podemos imaginar a quantidade de trabalho que custa para botar uma escola na avenida. É preciso um carnavalesco criativo, bom samba, bateria afiada, tradição, destaques. Para exprimir a espontaneidade, é necessário um tremendo trabalho de organização nos bastidores. Mais ou menos como no futebol. Também nele é preciso investimento, treino, aquilo que os boleiros chamam de “estrutura”, planejamento.

Mas, num caso como no outro, se não houver talento, invenção e brilho, nada feito. Pode até funcionar, de maneira burocrática. Pode ser tudo certinho, bonitinho, agradável, correto e eficiente. Até ganhar campeonatos e nota máxima dos jurados. Sem a centelha do imprevisível, sem aquele drible genial, sem a firula de uma passista, nada feito. Vivemos disso. De momentos de beleza.

(Coluna Boleiros, 16/2/10)