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Futebol Brasileiro, o filme

Luiz Zanin Oricchio

29 de outubro de 2009 | 13h23

Embora não diga isso jamais, Futebol Brasileiro deve seu eixo à concepção de Gilberto Freyre sobre a adaptação do esporte inglês por aqui. As ideias básicas do antropólogo pernambucano estão no prefácio que escreveu para o livro O Negro no Futebol Brasileiro, de Mário Filho. Nele, fala de miscigenação e de como, a partir dela, o “esporte bretão”, duro e reto, arredonda-se, amacia-se e transforma-se aqui num jogo de malícia e finta, mais maleável, em que a linha curva passa a predominar sobre a reta através do drible, da jogada de efeito; da ginga, enfim.

O filme da japonesa Miki Kuretani (com codireção de Tatiana Villela), um projeto fotografado por Cézar Charlone, tenta flagrar essas vertentes complementares – a especificidade de um povo e a originalidade de um jogo. Para isso, ouve especialistas como o cronista Armando Nogueira e o antropólogo Roberto DaMatta, autor de obras fundamentais sobre o assunto.

Armando defende a tese de que o Brasil é produto de três raças tristes, amálgama que, por paradoxo, teria gerado um povo vocacionado para a felicidade. Essa alegria inscrita no DNA nacional se expressaria na maneira como canta, como dança – e, claro, como joga o futebol. Jogo feliz, ou futebol-arte, essas características associadas (de maneira justa ou não) ao esporte nacional.

Para dar seu recado, o filme registra garotos que praticam o esporte e alguns ex-craques como Sócrates, Pepe, Lima e Coutinho, grandes expoentes do melhor futebol jogado à brasileira. Como diz Sócrates, que brilhou no Corinthians e na seleção brasileira, o maior time que viu praticar esse jogo feliz foi o Santos do início dos anos 60. No qual jogavam Pepe, Lima e Coutinho. Ao lado de um cidadão chamado Pelé.

(Caderno 2, 29/10/09)

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