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Fúria de Titãs

Luiz Zanin Oricchio

24 de maio de 2010 | 15h45

Fúria de Titãs é, como o recente Percy Jackson – o Ladrão de Raios, mais um produto baseado na fértil mitologia grega. Vem na versão 3D, técnica que está sendo considerada a salvação da lavoura da indústria cinematográfica. Há um motivo para isso: o 3D, por não ter similar doméstico à altura, justifica a saída de casa para ir ao cinema por parte de um público cada vez mais reticente.

O problema é que certos filmes, como Fúria de Titãs, sequer foram concebidos em 3D. A técnica foi aplicada a posteriori e, por isso mesmo, não se vê o que a justificaria no contexto da história e do tratamento das imagens. De fato, são poucas as oportunidades em que o recurso à terceira dimensão faz algum sentido visual para a narrativa de Fúria de Titãs.

De qualquer forma, em três ou em duas dimensões, Fúria de Titãs seria sempre um filme apenas razoável, cujo mérito maior seria é despertar as pessoas para a beleza da mitologia grega, se é que esse fenômeno de transferência de curiosidade acontece mesmo numa sala de  cinema contemporâneo. O que ainda fica por demonstrar.

Seja como for, o que se coloca na tela é uma história potencialmente interessante dada a sua fonte nobre. Perseu (Sam Worthington) é um semideus, ou seja, alguém concebido na relação entre um deus e um mortal. Este é filho de Zeus (Liam Neeson), o bambambã do Olimpo, mas que mantém uma antiga rivalidade com Hades (Ralph Fiennes), o deus das profundezas. Há, assim, uma rivalidade entre o bem e o mal, embora na mitologia grega essas relações sejam mais ambíguas do que na seara do monoteísmo judaico-cristão. Zeus é o todo-poderoso, mas ainda assim cheio de vícios e fraquezas humanas, como o ciúme ou a vaidade. Só que perto de Hades ele é um doce de coco. E, para derrotar Hades e salvar o universo de um pai que não o reconhece, e nem ele ao pai, Perseu deverá enfrentar monstros terríveis, como as Hidras e, acima de todos, a temível Medusa. Para quem não lembra, essa figura tem a cabeça de mulher,  cabelos em forma de serpentes e quem a fita nos olhos está condenado a virar estátua de pedra.

Esse monstro, como outras figuras da mitologia, são cheios de simbologia. Freud os estudou, assim como outros pensadores. Medusa fala um pouco da figura feminina e do temor reverencial que os homens a ela devotam, milênios afora. Como não se pode olhá-la nos olhos, o jeito para derrotá-la é ver o seu reflexo no espelho ou em qualquer superfície polida. Que dizer, vê-la indiretamente, o que terá de fazer Perseu para destruí-la e, mais do que isso, usar o próprio poderio do monstro a seu favor. Nessa história toda há algumas lutas boas, e essa, contra a Medusa, não chega a ser a pior entre elas. É pena, convém dizer mais uma vez, que os efeitos em 3D não pareçam nada funcionais para essa história, que, na verdade, não passa da diluição de um mito fascinante.

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