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Fumando espero

Luiz Zanin Oricchio

12 de maio de 2009 | 13h54

Fumando Espero, de Adriana Dutra, poderia funcionar como bom institucional da lei antitabagista há pouco aprovada em São Paulo. Verdade que o documentário inclui alguns elementos em geral ausentes de peças oficiais. Usa certo humor, mesclado ao libelo. Coloca-se em primeira pessoa, mostrando a diretora em mais uma tentativa de largar o hábito. Inclui recursos de animação em seu repertório de imagens. Nada disso é suficiente para disfarçar o tom militante moralista, aliás, condizente com nossa época.

No mais, comete o mais infantil dos pecados do documentarismo, o empilhamento um tanto aleatório de entrevistas e depoimentos. Quem são os personagens? Muitos famosos – como Ney Latorraca, Herson Capri e Du Moscovis – expõem a sua luta para largar o vício. Verdade que Adriana dá voz a quem não consegue deixar de fumar, como a jornalista Scarlet Moon, e também a uma septuagenária que, postada diante de uma máquina caça-níqueis, diz que viveu muito bem até ali e não vê razão para abandonar um “companheiro” de décadas. O engraçado é que, após fazer o proselitismo do cigarro, a senhora se afoga numa crise de tosse. Gozado, mas a “mensagem” está dada. Falam também médicos e outros especialistas.

Na parte mais lúcida do filme, a indústria do tabaco é abordada, ainda que de maneira superficial. Parece que tudo foi urdido de maneira a criar gerações de tabagistas através do mistificação da fumaça, envolta numa aura de glamour, em especial através do cinema. Basta ver as imagens de Humphrey Bogart, Lauren Bacall e Rita Hayworth para se saber do que se está falando.

É pena que fuja logo dessa raia. Nesse sentido, um filme de ficção como O Informante, de Michael Mann, é bem mais útil. Enfrenta a indústria em seu cerne, o capital, ao invés de fustigar usuários individuais, como Fumando Espero. Esse simplismo é o que melhor rima com o moralismo atual.

(Caderno 2, 12/5/09)

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