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Fruitvale Station, o rolezinho fatal

Luiz Zanin Oricchio

06 de fevereiro de 2014 | 12h10

O sujeito vai com a esposa ver os fogos de artifício em San Francisco na passagem do ano, pega o metrô, e bem, descobre o que significa ser preto, pobre e andar em grupo. Fruitvale Station – a Última Parada, de Ryan Coogler, é relato do que aconteceu na estação de metrô em Oakland, Califórnia, no réveillon de 2009. Filme baseado em fatos reais, portanto.

 

O protagonista é Oscar (Michael B. Jordan), cuja vida é mostrada nas 24 horas que antecederam o desfecho. Oscar não é mostrado como um santinho, inocente. Ele é o que é. Um jovem problemático. Esteve preso por tráfico de drogas. Arrumou emprego num mercado, mas logo foi despedido porque não chegava na hora. Vemos como tenta recuperar o trabalho, mas da maneira a mais torta possível, ameaçando seu empregador. No próprio mercado, ele percebe uma moça atraente comprando peixe e engata um flerte inteligente. Põe a garota no telefone com sua avó que, segundo ele, é ótima cozinheira e poderá dar as dicas necessárias. O conhecimento dessa moça branca lhe custará caro, mas ele não sabe disso. Ele não sabe de nada, e nem o espectador, a não ser que tenha lido sobre o caso.

Mas não é isso, ou seja, a realidade dos fatos, que importa tanto na construção da narrativa. Importa, sim, o trabalho com os elementos que compõem a vida de alguém que não pode ser classificado como delinquente e nem como cidadão exemplar. Oscar tenta se estabelecer segundo as regras da sociedade, mas estas não são fáceis de seguir quando se está numa certa situação. Também resiste ao apelo fácil do crime que o levou para as grades no passado. Já provou o fruto e sabe que ele começa saboroso e termina com gosto amargo. Oscar tenta se construir como gente. Tem uma família de que gosta, filha, mulher bonita, mãe amorosa, avó encantadora, mas alimenta certa hostilidade em relação ao seu meio ambiente. E quem pode culpá-lo? A sociedade não lhe é amena e isso ele descobre em cada olhar, na maneira como é tratado, em especial pela polícia.

Coogler constrói a narrativa como um thriller, ou, às vezes como um documentário jornalístico. Muita câmera na mão, ação, diálogos rápidos. Trabalha também com o tempo. Seu núcleo são as 24 do dia 31 de dezembro. Mas volta e meia recua mais, para um tempo em Oscar cumpria pena, por exemplo. O filme é vigoroso. Não é perfeito. Como escolheu fazer tudo convergir para certo desfecho, já conhecido pelo menos por parte dos espectadores, há certo clima de teleologia no relato. Como se tudo convergisse para aquele fim e não para outro. Há mesmo um ar de tragédia, em que um ato inocente como conhecer uma garota branca num supermercado pode trazer ao personagem consequências inconcebíveis mais adiante. Nesse tipo de narrativa, da qual já se conhece o final, é como se o acaso não interferisse na vida humana e tudo já estivesse predestinado.

Mas essa é apenas uma questão da construção ficcional. Não tira o vigor de um filme bem dirigido e interpretado de maneira consistente pelo protagonista e pelo resto do elenco. Parece inteligente (e sensível) a maneira de nos descrever um cotidiano que, se nada tem de idealizado, permite com certeza nos identificarmos com o personagem. Mesmo porque ele nada tem de distante. Os preconceitos que selaram a sorte de Oscar Grant III, 22 anos, naquele 1º de janeiro de 2009, estão vivos lá e cá. Basta um rolezinho para tirar a prova.

 

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