Fronteira
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Fronteira

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2008 | 21h38

fronteira

Escrevendo sobre os livros de Cornélio Pena (1896-1958), Mário de Andrade dizia que eram “romances de um antiquário”. Ótima definição para esse intimista que, à maneira de Lúcio Cardoso, evoca um universo de sombras e fantasmas, espaços fechados e almas atormentadas. Eis aí o clima de Fronteira, que Rafael Conde capta tão bem em sua parceria com o fotógrafo Luís Abramo.

Sim, deve-se destacar esse quesito técnico, porque, em Fronteiras, o registro fotográfico tem função particular. É ele que dá a ambientação necessária para que tome corpo esse universo quase impalpável do tormento anímico proposto pelo texto de Cornélio Penna. O enredo, por si só, não se sustentaria, não fosse a imagem tão cativante e, por vezes, tão assustadora. Com ela, o espectador é transportado para o interior de Minas, para os casarões com quartos pouco ventilados, corredores enormes, janelas fechadas. E, acima de tudo, para um ambiente no qual a fé confina com a obsessão. E o sexo, reprimido, se exacerba em presença da possibilidade do pecado.

É assim a história da menina Maria Santa (Débora Goméz), que vive num casarão em companhia da rígida tia Emiliana (Berta Zemel), quando recebe a visita de um misterioso viajante (Alexandre Cioletti). Emiliana é uma fanática, que prepara um grande milagre para uma população cheia de crendices. Maria é tida como a santinha milagreira. Mas, afinal, ela é apenas uma garota de carne e osso.

Vendo-se o filme salta à vista o parentesco do universo temático entre Cornélio Penna e Lúcio Cardoso – este adaptado para o cinema por Paulo César Saraceni em A Casa Assassinada e O Viajante. Nos dois escritores, o mesmo ambiente de religiosidade extrema e sexualidade mal resolvida. Mas, nos cineastas, as opções são distintas. Saraceni é mais aberto, mais over e incisivo; Conde prefere o minimalismo; trata suas imagens com o rigor de um pintor.

(Caderno 2, 4/12/08)

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