As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Frears em Havana

Luiz Zanin Oricchio

07 de dezembro de 2006 | 12h35

Temos hoje dia cheio pela frente. Um filme de 140 minutos agora pela manhã – El Cielo Dividido, do México e, em seguida, um compromisso social, um almoço com o presidente do festival, Alfredo Guevara (nada a ver com o Che). Depois outro filme no final da tarde, uma discussão preliminar do júri e noite livre, que vou tentar aproveitar para ver algum outro filme fora da minha lista de jurado. Alfredo Guevara sempre abre e fecha os festivais com seus discursos. O deste ano fez várias alusões à saúde de Fidel Castro. Enfim, vamos ver no que dá. Mas a sensação, e só se pode falar mesmo em sensação, porque nada é dito diretamente, é que a ilha se prepara para uma transição. Que pode ser rápida ou demorada, e isso ninguém sabe, porque é impossível adivinhar o ritmo da história.
Me lembro da primeira vez que fui à União Soviética, no começo dos anos 1980. Era na época de Brejnev, creio. Achei o ambiente opressivo, porém o regime parecia sólido como rocha. Pensei: eu não gostaria de viver aqui, mas esse sistema vai perdurar por séculos e séculos, tamanho o controle ostensivo sobre a população. Ao mesmo tempo, suspeitei que havia algo errado num país onde todos fechavam a cara e pareciam insatisfeitos. Dez anos depois, ele havia terminado.
Cuba nunca me causou essa impressão, inclusive pela descontração das pessoas, muito parecidas conosco. A informalidade é o tom da ilha e um dos seus aspectos mais cativantes. E talvez seja esse um dos fatores de atração para os turistas, pois a cada vez que volto mais os vejo por aqui. O Hotel Nacional, por exemplo, mesmo com suas tarifas faraônicas, está lotado. Há gente por todo canto, mas isso também é comum em época de festival. Italianos, alemães, franceses, chineses, rostos de todos os países. Inclusive americanos, que têm de driblar as autoridades do seu país para chegar até aqui. Não podem viajar diretamente e atingem Havana por outro país latino-americano, como Peru, Equador ou mesmo o México.
Isso nunca impediu que alguns artistas norte-americanos viessem para o festival. Há mesmo alguns habitués, como Francis Ford Coppola, que vi aqui mesmo no hotel, faz alguns anos com suas camisas coloridas de turista gringo. Ou o ator Harry Belafonte, que vem sempre e é adorado pelos cubanos. Aliás, quem chegou ontem foi o diretor inglês Stephen Frears, que vai apresentar aqui seu filme The Queen, A Rainha. Acabei de ver Frears, aqui no saguao do hotel. Um dos meus amigos cubanos me disse que a procura por ingressos havia sido tão grande que transferiram a sessão de um cinema comum para a sala do Karl Marx, que tem 5 mil lugares. Será à noite e é a grande atração de hoje no festival.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.