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Francisco Bosco

Luiz Zanin Oricchio

18 de fevereiro de 2015 | 09h30

 

Abro hoje o Globo e leio a despedida de Francisco Bosco. A saída já era esperada,  desde que o filho de João Bosco foi indicado para dirigir a Funarte. O colunismo e o cargo no governo são incompatíveis. Mesmo assim é pena. Ao menos para os leitores, entre os quais me incluo.

Bosco fizera da sua coluna semanal no Segundo Caderno um verdadeiro espaço de reflexão, qualidade de que a mídia anda tão carente. Temos colunas de tudo hoje em dia. Ideológicas, divertidas, informativas, provocativas, fonte de picuinhas, etc. Algumas valem a leitura, a maioria não. Bosco fazia do seu espaço uma área de necessário entrechoque de ideias. Como ele mesmo diz em seu texto de despedida, costumava partir de fatos banais para “fazê-los falar” em contato com a alta cultura. Por exemplo, tomava uma expressão tão comum como “a ficha caiu” para submetê-la ao background teórico pouco usual do psicanalista Jacques Lacan.

Guardadas as proporções, o trabalho de Bosco me lembrava o que realiza o italiano Umberto Eco e o que, antes dele, fazia o francês Roland Barthes. Dar ao cotidiano, ao pequeno, ao banal, o status de objetos dignos de serem pensados, em toda sua complexidade, nuances e implicações para a vida de todos. É uma tarefa civilizatória, em tempos tão carentes desta outra qualidade.

Esse deslocamento que vai do banal ao erudito, a tese de que as pequenas coisas se iluminam com as grandes ideias e produzem seu rendimento máximo em termos de compreensão social, sempre foram de grande agrado para mim. E também é uma de minhas ambições intelectuais não cumpridas (ainda). Jovem (não tem 40 anos), Bosco a realizava com rara mestria. Nem sempre concordei com ele (é da vida discordar). Mas sempre admirei seus momentos de brilho e a consistência argumentativa que empregava, sem economias, num espaço nobre no jornal. Num mundo cada vez mais opinativo e intransigente, confiava, ainda que desconfiando, nas virtudes da razão, suas limitações e seu alcance.

Se realizar na Funarte gestão à altura dos seus textos, a instituição está feita.

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