Ford vs. Ferrari, arqueologia de uma época
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Ford vs. Ferrari, arqueologia de uma época

Luiz Zanin Oricchio

28 de novembro de 2019 | 12h08

Deixo aos especialistas o debate sobre a exatidão da história do piloto Ken Miles (1918-1966) contada em Ford vs Ferrari, de James Mangold. Do ponto de vista do leigo, fã de automobilismo mas sem conhecimento específico do esporte, ela parece perfeitamente convincente. 

E esse efeito, claro, sustenta-se não apenas no realismo transmitido pelas cenas de corridas, mas pela personalidade desafiadora de Miles, britânico radicado na Califórnia. 

Ao longo do filme, a persona de Miles, recriada por Christian Bale, me lembrava a de Chuck Yeager (Sam Sheppard), de Os Eleitos (The Right Stuff, 1983), filme de Philip Kaufman baseado no livro-reportagem de Tom Wolfe sobre a conquista espacial. 

Miles e Yeager eram mais ou menos da mesma época, despontaram nos anos 1950 e 1960. Másculos, individualistas, desafiadores, anticonvencionais, sobretudo corajosos e honestos consigo mesmos. Yager pilotava jatos como ninguém, mas tornou-se peça de museu quando a exploração do espaço automatizou-se e passou a pedir outro tipo de profissional, mais anônimo e disciplinado. Menos “autoral”, por assim dizer.  

O mesmo se pode dizer de Miles. Era um expoente da época romântica do automobilismo, um tipo que não caberia em nossos dias. Na verdade, nem cabia direito em seu próprio tempo. 

O contexto da história é o desejo de Henry Ford II colocar sua marca entre as européias, que dominavam o automobilismo mundial. Em especial, derrotar a Ferrari e desbancar a arrogância italiana do mitológico Enzo Ferrari e suas máquinas vermelhas. Mas, para chegar ao topo do pódio, era preciso mais do que dinheiro e poder. Era preciso gente que pudesse tornar a façanha realidade e esta não se encontrava entre os executivos da companhia. De modo que foram buscar o projetista e ex-piloto Carroll Shelby (Matt Damon) e este trouxe consigo seu amigo e parceiro de antigas aventuras nas pistas, Ken Miles. 

Parte da história se trava na luta corporativa de Shelby para defender suas ideias. E, sobretudo, impor a presença de Miles ao volante do carro, porque o inglês era considerado um tipo inadequado para representar a Ford. A outra parte se dá nas pistas, e também na relação conturbada entre Shelby e Miles. Shelby era teimoso como um texano pode ser, mas mostrava jogo de cintura para se mover na intrincada hierarquia corporativa de uma gigante como a Ford. Miles era instinto puro. 

O resultado dessas personalidades contrastantes, entre as quais sobressaía a mais forte delas, a de Miles, é um filme empolgante, que não perde seu brilho mesmo com algumas inconsistências mais óbvias. Por exemplo, um corredor não encara longamente o adversário quando o está ultrapassando a mais de 300 km/h, sob chuva; concentra-se na pista, no volante e na alavanca de mudanças. No entanto, é que se vê com o olhar fulminante de Bale ao passar por Lorenzo Bandini, piloto da Ferrari. 

Outras coisas não sabemos se são verdadeiras ou recursos dramáticos. Por exemplo, a briga física entre Shelby e Miles, que precede a reconciliação. Ou o traumático “passeio” de Henry Ford com Shelby ao volante de um protótipo do Mustang para que o empresário experimentasse o que sente um piloto num carro a mais de 7000 RPM. 

Não sabemos dos bastidores do famoso acerto para que Miles, virtual vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1966, ralentasse a marcha de modo a cruzar a linha de chegada em companhia dos dois outros Fords presentes à disputa, fornecendo assim uma foto histórica para a companhia. Pode ter sido uma imposição da empresa. Pode ter sido uma decisão individual e inesperada de Miles. Ou ainda um gesto de consideração para com seu parceiro de sempre, Shelby, que afinal punha o cargo em risco. O que foi? Não se sabe. O filme sugere sua interpretação. Mas deixa em suspenso o mistério sobre o acidente fatal do piloto, durante um treino. O que teria acontecido? A pergunta sequer é colocada, mas obceca até hoje os fãs do automobilismo. 

Enfim, isso importa pouco, porque interessa mesmo é a verossimilhança interna do relato e a maneira como recria personagens complexos nesse momento histórico fascinante – e perdido para todo o sempre na poeira do tempo. Ford vs Ferrari é, a seu modo, a arqueologia de uma época, seus valores, seus heróis, sua maneira de pensar. 

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