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Flor do Deserto

Luiz Zanin Oricchio

26 de junho de 2010 | 18h52

A personagem é magnífica e existe na vida real. Waris Dirie foi uma das modelos mais requisitadas do mundo fashion durante os anos 1980 e 1990. Quem via aquela escultura de mulher não adivinhava o drama que vivera na infância, e que carregaria para a vida. Ela mesma veio a público para contá-lo. Em depoimento à revista Marie Claire, revelou que havia sofrido mutilação genital quando era uma menina de 3 anos de idade. Flor do Deserto, dirigido por Sherry Hormann, é o filme que vem para contar essa história de vida, e advertir para uma prática que, dizem os militantes que a combatem, continua a existir em vários países africanos.

Waris Dirie é interpretada pela também modelo e atriz etíope Liya Kebede, que esteve no Brasil para lançar a produção. O filme mostra a trajetória da moça que chega a Londres quase sem falar inglês, consegue emprego numa lanchonete e, descoberta por um fotógrafo de moda, tira a sorte grande ao se iniciar no milionário mundo fashion.Não sem alguns acidentes de percurso, pois vivia na ilegalidade, tinha o passaporte vencido e precisou se adaptar rapidamente aos usos ocidentais para vencer.

O filme é comovente, em especial porque a história o é. De fato, é impossível ficar indiferente a algumas cenas, tais como aquela em que a moça descobre que nem todas as garotas apresentam a mesma mutilação anatômica que ela. É a consciência da diferença e, no caso, de uma diferença para pior, infligida por um costume cruel.

No vai e vem entre a vida londrina e os flash-backs que levam a personagem de volta à Somália, cria-se um clima de suspense e desolação sobre o destino daquela criatura. Hormann trabalha com delicadeza nessa superposição das duas fases. Inclusive acrescentando algumas pitadas de humor, que ajudam a amenizar a narrativa. Algumas dessas tiradas humorísticas vêm, por exemplo, da outra personagem feminina, a companheira de quarto de Waris em Londres, vivida por Sally Hawkins, sempre muito engraçada, e, no final, bastante solidária com a candidata a modelo.

A presença dessa personagem ficcional explica-se pela necessidade de tornar suportável uma história sofrida demais. No entanto, esse lado “agradável” de Flor do Deserto não é capaz de tirar a força do depoimento que Waris Dirie colocou no livro agora transposto para as telas. Ele apenas torna suportável a denúncia que se deseja passar. E, para que passe, foi preciso incluir uma sequência bastante dura para o espectador, e, em particular, para a espectadora.

Talvez se pudesse pedir ao filme que aprofundasse um pouco a questão da mulher vista como ameaça sensual em determinadas culturas. Seria transformar o projeto em documentário? Não necessariamente. Apenas o tornaria ainda mais contundente.

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