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Fim da Linha faz opção pela sátira didática

Luiz Zanin Oricchio

10 de março de 2008 | 10h58

Fim da Linha, de Gustavo Steinberg, traz uma triste atração – é a última aparição na tela de Rubens de Falco, morto dia 22 de fevereiro. De Falco interpreta o deputado Ernesto Alves, que desaparece depois de ganhar na loteria 1.313 vezes. A partir daí, o projeto já revela seu rosto. Trata-se, em parte, de um cinema “à clef”, em que personagens fictícios remetem a figuras reais. Ernesto Alves se refere ao deputado João Alves, um dos “anões do orçamento”, que justificava sua fortuna pela inacreditável sorte na loteria. De Ernesto para João, tudo está dito. O sobrenome é o mesmo, porque não interessam a Fim da Linha sutilezas ou complexidades. Faz a opção pela sátira didática.

O problema desse tipo de projeto demonstrativo é que parte de uma premissa e todo o resto se constrói para justificá-la. Qual a premissa? Meio óbvia, porque em aparência expressão de verdade cristalina: tudo, na sociedade brasileira atual, é medido em termos monetários. É como se a desconsideração absoluta pelo fator ético e o arquivamento das ilusões tivessem jogado o brasileiro nesse corpo-a-corpo imediato com a bruta realidade. A vida nacional tornou-se briga de foice, na qual chora menos quem pode mais.

Mas, para os fins do projeto, não basta dizer que existe corrupção e que esta presta sua homenagem à onipotência da grana. Afinal, corrupção existe desde a antiguidade, quando Vespasiano tributou os mictórios de Roma, desviou o dinheiro arrecadado e ainda cunhou frase de grande atualidade “Dinheiro não fede (pecunia non olet)”. Não. Para ser programático, é preciso supor que a corrupção não seja algo histórico ou localizado, mas faça parte da “natureza humana”. Se existe, por óbvia, na política, estende-se aos índios que cobram por suas danças da chuva; ladras de rua, catadores de papel, etc.

Ao tocar esse samba de uma nota só, Fim da Linha entra no coro do pensamento politicamente apocalíptico, segundo o qual o Brasil não vale nada e compartilham da responsabilidade pelo caos o empresário que sonega a nota fiscal e o mendigo que ameaça os pares para defender o seu ponto sob o viaduto. Trata-se de visão moralista, uma espécie de udenismo cinematográfico que passa por crítico. Quando para ser crítico, de verdade, seria preciso expressar as cisões presentes na sociedade e as contradições entre elas. Mas então a “tese” a ser demonstrada – a da universalidade da corrupção – poderia ficar comprometida. Cinema de tese fechada costuma ser autofágico. Devora-se, até mesmo quando parece ter razão.

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