Fim da era Fidel Castro
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Fim da era Fidel Castro

Luiz Zanin Oricchio

19 Fevereiro 2008 | 13h33

fidel
Fidel com Camilo Cienfuegos

A propósito da renúncia de Fidel Castro, gostaria de recomendar um texto, escrito logo após uma viagem a Cuba, em dezembro de 2006.

Na ocasião, fui a Havana para o Festival de Cinema, e Fidel parecia muito doente. Conversei com várias pessoas e a opinião era de que “el comandante” não voltaria a governar, mesmo que escapasse. Foi o que aconteceu. Na rua, todos já respiravam a transição, que na verdade estava se processando nos bastidores, como sabiam os observadores mais informados.

Para o povo cubano, Fidel é uma referência (negativa ou positiva), mas de qualquer forma referência, após 49 anos de presença marcante. Vai aprender a viver sem ele, o que é óbvio. E a transição se fará, não se sabe ainda em que direção. Raúl também está velho, embora com boa saúde, e deve fazer um governo tampão. Carlos Lage é a bola da vez, parece. Ele, e outros jovens.

A pergunta que se faz: como Fidel entrará na História? Ele que, preso em 1953, já havia dito seria ela, a História, a julgá-lo e não um governo que o havia detido e considerava ilegítimo.

As opiniões hão de se dividir. Parte das pessoas verá o fim de uma ditadura longa. E ponto final. Se fosse apenas isso, por que então Fidel mereceria tanta atenção, páginas e páginas de jornais, reportagens em TV, etc? Deve haver algo mais e, goste-se dele ou não, foi uma das personalidades marcantes da segunda metade do século 20. Não se escreve a história do período sem citá-lo.

Parte das pessoas verá o fim de uma era, de um ícone das idéias libertárias dos anos 60, mas talvez esquecendo que há muito Fidel já não representava mais essas idéias, e muito menos ideais libertários.

No entanto, há Cuba. A ilhota que, num determinado momento histórico, enfrentou seu vizinho do norte e, bravata ou não, falava grosso quando todos abaixavam a cabeça. Essa ilha encantou àqueles que sonhavam mudar o mundo e, evidentemente, perderam.

Fica a ilha. É um país pobre, belíssimo, no qual liberdade de expressão e liberdades democráticas, como direito de ir e vir, etc. são letra morta.Nada disso pode ser defendido. Porém, não se vê uma criança na rua, pois todas estão na escola. E, claro, jamais se vê em Cuba essa abjeção que testemunhamos a cada dia, crianças pedindo e vendendo qualquer coisa nos sinais de trânsito. A saúde é para todos e não apenas para quem pode pagar por médicos e hospitais. Tudo isso tem de ser pesado e balanceado. Cuba avançou nos quesitos educação e saúde. Tem índices do Primeiro Mundo. Não é pouca coisa. Fica devendo em outros ítens.

No plano interno, Fidel sai de cena quando a revolução que comandou, junto com Che, Raúl e Camilo, tornou-se uma página distante da História, mesmo para as novas gerações de cubanos. Estes, apesar de bombardeados por mensagens patrióticas, têm outras aspirações e desejos, sobretudo de consumo. O tal “homem novo”, de que falava Guevara, não nasceu.

Cuba continua fascinante. Até mesmo para quem detesta a independência política que a ilha um dia representou.