As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Filmes procuram compor o mosaico ainda incerto do Iraque

Luiz Zanin Oricchio

28 Setembro 2008 | 18h03

Provavelmente a 2ª Guerra Mundial seja a maior inspiradora de filmes do gênero até agora. O que se compreende, pois foi o conflito mais duradouro e sangrento do século passado, e definiu o mundo tal como o conhecemos, pelo menos até 1989, quando outra geopolítica começou a se impor. A Guerra do Vietnã também forneceu sua parcela de obras ao cinema, de Corações e Mentes a Apocalypse Now. E agora é a Guerra (ou invasão) do Iraque que vem chegando às telas com consistência crescente.

O Vale da Morte, de Paul Haggis, é um deles, com Tommy Lee Jones no papel de pai de um soldado desaparecido. Ainda que bom filme, é romanceado e trata a guerra com certo distanciamento. Bastante mais próxima é a abordagem de Katryn Bigelow e seu Hurt Locker, que concorreu no recente Festival de Veneza. Baseado no prêmio Pulitzer homônimo de Mark Boas, Hurt Locker trata de um batalhão especial em operação no Iraque – o dos desativadores de bombas.

Trabalho tenso, no limite da morte, causa, segundo Boas, curiosa dependência nos soldados. Acostumados à adrenalina, eles mostrariam uma dificuldade incomum de readaptação à vida civil. O filme, em alguns bons momentos, procura representar essa pulsão despertada pelo perigo mortal, mas falha num ponto importante: apega-se ao ponto de vista norte-americano e não faz qualquer esforço para enxergar o outro lado. Justamente o dos iraquianos, que tiveram o seu país invadido e sofrem as piores conseqüências de uma guerra que não pediram.

Hurt Lockers é totalmente descontextualizado e esquece de alguns “detalhes” como a não autorização do ataque pela ONU, as supostas armas de destruição de massa jamais encontradas, etc. Enfim, é o tipo de obra que reduz a guerra ao seu aspecto de ação e aventura e não vai muito além desses limites.

Bem diferente é Redacted, de Brian de Palma, até agora o trabalho mais incisivo e brilhante sobre a presença norte-americana no Iraque. O filme, que será exibido no Festival do Rio, impressiona tanto pelo conteúdo como, principalmente, pela forma como enfrenta seus temas.

De Palma conta um caso real: em busca de diversão, alguns soldados americanos invadiram a casa de uma família iraquiana; violentaram uma garota de 15 anos, depois a mataram e queimaram o corpo. Em seguida, assassinaram o resto da família, os que haviam testemunhado o estupro – mãe, irmãs, o avô. Não sobrou ninguém para contar a história.

E como esta foi contada? Bem, há um personagem que registra as cenas com seus colegas em sua câmera de vídeo pois pretende, com o material, prestar exame em uma escola de cinema quando der baixa. Assim, grava o cotidiano, a pressão constante do trabalho, que consiste em revistar todos os veículos para ver se contêm armas ou bombas, o relacionamento tenso com os civis, o medo. Registra a maneira como essa tensão se transforma em agressividade e, por fim, em crime.

Às imagens recolhidas por essa testemunha se juntam outras: pequenos vídeos colocados pelos próprios soldados no YouTube, depoimentos online, imagens confusas e de baixa definição captada por câmeras de segurança. Um mosaico de imagens de texturas e qualidade diferentes, que compõem um quadro impressionante da presença dos soldados no Iraque. De Palma disse que esse painel, composto por muitos pontos de vista e materiais de origens distintas, era uma maneira encontrada de mostrar o grau de ambivalência gerada pela situação de conflito – a “névoa da guerra”, de que falava Carl von Clausewitz. A ambigüidade não diminui a força desse libelo. Pelo contrário.

(Cultura, 28/9/08)