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Filmes para mudar o cinema…e o mundo

Luiz Zanin Oricchio

20 de maio de 2008 | 13h23

A mostra 1968 no Cinema, que será exibida em três salas, Cinemateca Brasileira, Galeria Olido e Cinusp, faz parte de um projeto mais amplo chamado Utópicos e Rebeldes – A Geração Que Disse Não, incluindo exposição iconográfica, lançamento de livros, debates, espetáculos teatrais, etc. Tudo para celebrar 1968, o ano rebelde que, se para alguns é apenas uma data no calendário, para outros é marco de um tempo em que tudo mudou.

Para ficarmos no âmbito do cinema, e nos filmes propostos pela mostra, podemos conferir o que mudou mesmo. Em especial, em alguns dos títulos lançados no período, um pouco antes ou um pouco depois. Um deles, Terra em Transe, de Glauber Rocha, é do ano anterior, da mesma forma que o clássico soixante-huitard A Chinesa, de Jean-Luc Godard. Outro, O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, é puro 68, assim como Câncer, também de Glauber. Bla Bla Bla, de Andrea Tonacci, Desesperato, de Sérgio Bernardes Filho, e Hitler III Mundo, de José Aggripino de Paula, são exemplares que vieram à luz naquele ano tanto encantador quanto fatídico.

São – é óbvio constatar – muito diferentes entre si. Mas, vistos de um certo ângulo, revelam pontos em comum. Sobretudo um: são obras provocativas, de contestação ao maistream – e, por esse termo, entenda-se o status quo de maneira ampla, tanto político e comportamental quanto estético. Essa turma de 68 ia contra o que havia – uma sociedade fechada, ditatorial e puritana – e o fazia com meios também inovadores. Daí a visão fragmentada de um Glauber ou de um Godard, o deboche de um Sganzerla, o deliberado mau gosto dos chamados ‘marginais’.

Engraçado é que os filmes do período são assim, enquanto os filmes sobre o período parecem mais comportados do ponto de vista estético. É compreensível. Aqueles procuravam a ruptura no calor da hora; estes, tematizam essas fraturas, porém com o olhar de um tempo mais acomodado. São assim, por exemplo, os títulos, de ficção ou documental, que interpretam um dos temas com mais freqüência associados a 68, a luta armada, como Caparaó, de Flávio Frederico, Hércules 56, de Silvio Da-Rin, e Batismo de Sangue, de Helvécio Ratton. Ou os belíssimos Os Sonhadores, de Bertolucci, e Amantes Constantes, de Philippe Garrel, evocativos do maio de 68 francês.

(Caderno 2, 20/5/08)

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