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Espiritismo no cinema

Luiz Zanin Oricchio

04 de setembro de 2010 | 06h30

Estou longe (na Itália) mas sigo a repercussão do filme Nosso Lar. Entrou em 435 salas, o que é recorde no cinema nacional. Vejo muitos comentários desfavoráveis ao breve comentário que fiz sobre o filme- muito ruim, em minha opinião. Preveni que não estava discutindo religião, mas cinema. Não adianta. Fanáticos não ouvem, não leem, não compreendem e nem aceitam opiniões divergentes. É da vida. Da vida terrena, pelo menos. Abaixo, uma matéria que mandei ao jornal falando da atual leva de filmes espíritas.

A leva atual de filmes espíritas não se dá por acaso. Afinal, em 2010 comemora-se o centenário de Chico Xavier, o mais amado médium brasileiro. Assim, não poderiam deixar de chegar ao cinema a cinebiografia do personagem assim como a adaptação do bestseller psicografado Nosso Lar, que estreia hoje.

Também é verdade que a safra mediúnica já havia sido anunciada pelo sucesso de Bezerra de Menezes – o Diário de um Espírito, de Glauber Filho e Joe Pimentel, o filme cearense de maior público em toda a história. Isso comprovou a produtores e cineastas a existência de uma plateia cativa para esse, digamos, gênero cinematográfico. Algo que não é especificamente brasileiro, pois afinal a crença na vida após a morte sempre rendeu bons dividendos – basta pensar no turbilhão de bilheteria que foi Ghost – o Outro Lado da Vida. Fornece certo alívio à principal angústia humana, a da morte, sugerindo que a vida não termina com a corrupção da carne. Existe um além, no qual a alma sobrevive. E, mais ainda, afirma que podemos ter um contato com esse além e assim não perdemos de fato as pessoas amadas que nos deixam.

Nesse ponto, Nosso Lar, de Wagner de Assis, talvez seja entre eles o mais ostensivamente consolatório, pois, segundo o suposto relato do médico André Luiz de sua experiência no além, a vida por lá continua quase igual à deste vale de lágrimas. A alma trabalha, reside e se locomove; reencontra-se com seus entes queridos, evolui, convive com os seus semelhantes e habita uma cidade que lembra muito a ordenação arquitetônica de Brasília. Levando-se em conta o que dizia Spinoza – que a religião se situa no espaço preciso entre o temor e a esperança – compreende-se muito bem a força desse tipo de ideia e o conforto que oferece aos crentes. Nesse sentido, Nosso Lar é o filme emblemático da safra espírita, mais ainda do que Chico Xavier, o grande sucesso de Daniel Filho, que, afinal, se prende mais à trajetória do médium que à explicitação da doutrina. Nosso Lar revela, na prática, o be-a-bá daquilo que o crente espera lhe aconteça após a morte (física).

O estudo desse tipo de conforto é a base do documentário As Cartas Psicografadas de Chico Xavier, de Cristina Grumbach. No caso, a documentarista não toma partido religioso. Não se trata de uma crente ilustrando determinado tipo de fé; ela apenas registra, e procura compreender, os efeitos que essa fé produz sobre as pessoas. Sobre um tipo determinado de pessoa, aliás, formado por pais e mães que conheceram a mais dolorosa das experiências, a de perder um filho. Essa inversão da cronologia natural da morte produz um tipo de luto difícil de terminar. Daí o consolo fornecido pela suposta comunicação através de cartas escritas por via mediúnica. A diretora opta pela leitura quase integral desses textos, notando que a repetição, e o tempo alongado, fazem parte desse trabalho de luto que, se nunca termina, pelo menos pode atenuar a dor. É um filme comovente – e bastante instrutivo — sobre o conforto oferecido pela fé.

Existe ainda outra maneira de utilizar as ideias espíritas de maneira cinematográfica. Maneira, digamos, laica que não embarca na crença nem procura entender o alívio que elas representam. Por exemplo, em O Último Romance de Balzac, Geraldo Sarno mescla a crença de que o escritor francês teria ditado um novo livro depois de morto à encenação de uma de suas obras mais conhecidas – esta, por certo, escrita quando vivo – A Pele de Onagro. O curioso é que A Pele de Onagro fala do desejo fáustico por poder, dinheiro, conhecimento, e do pacto com forças obscuras para conseguir tudo isso. Aqui, o documentarista não precisa se alinhar a uma crença para explorar (no bom sentido) as suas possibilidades dramáticas.

Procedimento também adotado por Sylvio Back em sua Guerra do Contestado – Restos Mortais. Na construção do filme, ouvem-se historiadores e gente do povo falando sobre o conflito, tão importante quanto Canudos na história brasileira das lutas sociais. E, ao lado dessas testemunhas habituais, ouvem-se também “depoimentos” de participantes da guerra, tomados a partir de médiuns incorporados. O expediente de Back foi muito criticado, por heterodoxa, mas ele dá ao relato uma dramaticidade que de outra forma ele não teria. Basta supor que os médiuns sejam, talvez, atores para que tudo seja restituído ao nosso plano terrestre. E, bem, funcione do mesmo jeito na tela.

No caso, a única crença indispensável é no poder do cinema em evocar o espírito de causas passadas.

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