Filme nigeriano ‘Eiymofe – Esse é o meu Desejo’ é o grande vencedor da Mostra 2020
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Filme nigeriano ‘Eiymofe – Esse é o meu Desejo’ é o grande vencedor da Mostra 2020

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2020 | 12h25

O longa Eiymofe – Esse é o meu Desejo escapou ao radar dos cinéfilos e surpreendeu ao ser eleito melhor filme desta 44ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. 

Tem méritos. É um belo e curioso filme. Fala de pessoas que sonham em sair do país, mas enfrentam muitos problemas para fazê-lo. O homem eletricista deseja ir para a Espanha. Uma mulher devaneia com a Itália. No entanto, por um motivo ou por outro, eles vão ficando. E, ficando, começam a adaptar o que sonharam às condições de que dispõem na realidade. 

Nada disso faz de Eiymofe uma obra conformista. Pelo contrário. Bem visto, é um elogio à capacidade de adaptação, à versatilidade e à inventividade, mesmo a condições às vezes precárias. 

O aspecto mais importante, porém, reside na narrativa. Ao vê-la, nos defrontamos com uma maneira diferente de contar histórias, menos linear, ritmada, em cadência diversa daquela a que estamos habituados. É muito agradável, para quem gosta de cinema, experimentar essas formas narrativas que saem do padrão convencional. Elas nos envolvem e nos tocam porque, afinal, apesar de todas as diferenças de fenótipo ou de cultura, ou mesmo de estilo de contar suas histórias, a família humana é mesmo uma só. 

O mesmo júri (Cristina Amaral, Felipe Hirsch e Sara Silveira) elegeu o norte-americano 17 Quadras como melhor documentário. Esse já havia sido discutido nas redes de cinéfilos e críticos. Era uma bola da vez. O título se refere ao bairro popular de Washington que dista apenas 17 quarteirões do centro do poder. Apesar da pouca distância, revela uma realidade bem distinta, com problemas agudos como racismo, violência, criminalidade e desemprego. Filmado ao longo de 20 anos, expõe o drama (mas também as alegrias) de uma família que tem um dos membros mortos pela violência urbana com apenas 19 anos e fica marcada por isso. É muito comovente. 

Além dos prêmios principais, o júri deu ainda duas menções honrosas para os brasileiros Chico Rei entre Nós e Valentina. O primeiro é um sólido documentário em torno do mito de Chico Rei e sua importância para a história do país. O segundo é um ficção que põe em evidência a luta de pessoas transgênero contra o preconceito e a violência. É bem realizado. 

Os prêmios da crítica foram para o português Mosquito e o brasileiro Glauber/Claro. Já o júri da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) ficou com o inventivo documentário Êxtase, sobre uma experiência particular da diretora com a anorexia. 

A cerimônia de encerramento realizou-se, de maneira presencial, na parte externa do Espaço Ibirapuera e foi transmitida pelos canais da mostra na internet. Teve momentos de emoção na entrega do prêmios Leon Cakoff para Sara Silveira e Humanidades para Walter Salles. São dois profissionais importantes e batalhadores do nosso cinema, no momento acossado por um governo irresponsável. 

Mas o momento mais lindo foi o prêmio Humanidades coletivo destinado do aos funcionários da Cinemateca Brasileira, ato que se transformou em manifestação pela sobrevivência dessa importante entidade, responsável por nossa memória fílmica. Como todos sabem, a Cinemateca é objeto de desmanche pela esfera federal e encontra-se fechada. Sua preservação diz respeito a todos nós – que gostamos de cinema e entendemos que um país sem memória condena-se a viver no passado. 

A noite terminou com a exibição do filme de encerramento, Druk – Another Round, do dinamarquês Thomas Vinterberg, exclusivo para os que estiveram no Ibirapuera e mais 500 privilegiados que o haviam reservado na plataforma digital da Mostra. 

OS PREMIADOS:

 . “Eyimofe (Esse É Meu Desejo”), de Arie e Chuko Esiri (Nigéria): melhor longa ficcional pelo Júri Oficial

 

. “17 Quadras”, de Davy Rothbart – melhor documentário pelo Júri Oficial

 

. “Chico Rei Entre Nós”, de Joyce Prado (São Paulo) – Menção honrosa do Júri Oficial, melhor documentário brasileiro pelo júri popular

 

. “Valentina”, de Cássio Pereira dos Santos (MG-DF)– Melhor ficção brasileira pelo júri popular, menção honrosa do Júri Oficial para a atriz Thiessa Woibackk

 

. “Glauber, Claro”, de Cesar Meneghetti (Brasil-Itália): Prêmio da Crítica de melhor filme brasileiro

 

. “Mosquito”, de João Nuno Pinto (Portugal) – Prêmio da Crítica de melhor filme internacional

 

. “Êxtase”, de Moara Passoni (Brasil) – Prêmio Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) para filme de jovens realizadores

 

. “Não Há Mal Algum”, de Mohammad Rasoulof (Irã) – Prêmio do júri popular de melhor ficção

 

. “Welcome, Chechnya”, de David France (EUA) – melhor documentário pelo júri popular

 

. “Neuros” – projeto de Guilherme Coelho – Prêmio Incubadora do Projeto Paradiso do Instituto Olga Rabinovich

 

. Prêmio Leon Cakoff: para a produtora gaúcho-paulista Sara Silveira

 

. Prêmio Humanidade: para o Coletivo de Funcionários da Cinemateca Brasileira

 

. Prêmio Humanidade: para o documentarista norte-americano Frederick Wiseman

 

. Prêmio Fiaf (Federação Internacional de Arquivos de Filmes): para Walter Salles, por seu trabalho na preservação materiais audiovisuais

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