Filme libertário abre Olhar de Cinema 2020
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Filme libertário abre Olhar de Cinema 2020

Luiz Zanin Oricchio

08 de outubro de 2020 | 09h49

Para onde voam as Feiticeiras, de Eliane Caffé, Carla Caffé e Beto Amaral, abriu ontem a 9ª edição do Olhar de Cinema, festival baseado em Curitiba. Como outros eventos do gênero, o Olhar, este ano, está sendo online. 

O longa de abertura expressa bem o espírito do festival curitibano, inovador, transgressivo, a contrapelo do conservadorismo. O filme acompanha um grupo de performers LGBTQUIA+ em suas intervenções no centro da cidade de São Paulo. 

Há cenas e ideias preciosas num trabalho que escapa ao banal. Entre as cenas, a intervenção do grupo em uma prédica evangélica em meio ao caótico ambiente do centro da cidade. Noutra, o genial técnico de som português, Vasco Pimentel, sai de suas funções e se incorpora à performance (Já havia feito isso em Partida, road movie político de Caco Ciocler).  

Em gravação, a filósofa Judith Butler, intervém através de ideias provocativas. Entre elas, a questão sempre problemática das alianças entre grupos progressistas numa época em que grassa o conservadorismo. Butler, bom lembrar, tem experiência do país. Foi importunada no aeroporto por uma bolsonarista fanática quando esteve no Brasil. 

O filme foi me conquistando aos poucos. É quando consegue alçar vôo e se livrar de certa autocomplacência que Feiticeiras fica melhor. Então sentimos melhor sua pegada libertária, tão necessária no combate à caretice contemporânea. Tomar partido do ativismo negro, indígena e LGBT é mesmo uma atitude política, ainda que alianças desses grupos com a esquerda, digamos, tradicional, se mostre às vezes tão problemática. 

É o que nos leva a pensar a fala de Butler, à distância, sobre a “fricção das alianças” e a dificuldade de encontrar pontos comuns para avançar em conjunto. Fala retomada por Ave Terrena Alves, perto do final. 

E, sim, claro, sentimos a mão cinematográfica segura do trio que dirige o longa. Não se trata apenas de mensagem. Vê-se bom cinema em Para Onde Voam as Feiticeiras

O Olhar de Cinema traz várias outras atrações na programação de hoje e nos próximos dias – o festival prossegue até dia 15/10. Além dos filmes, há debates e seminários que podem ser acompanhados pela internet. 

Entre as atrações de hoje, há duas delas – brasileiras – que conheço e recomendo sem restrições: Sertânia, de Geraldo Sarno, e Fakir, de Helena Ignez. Obras de dois veteranos em plena forma. 

Outra pedida – mas esta ainda não vi, é uma aposta mesmo – é Nardjes A., documentário em que Karim Aïnouz (de A Vida Invisível) sai em busca das raízes familiares, na Argélia. 

Há muitas outras atrações a serem vistas ao longo deste festival, subdivido em várias mostras: competitiva, olhares Brasil, novos olhares, outros olhares, etc. Os ingressos custam R$ 5 por filme, que ficam disponíveis ao comprador por tempo determinado. 

As informações estão no site olhardecinema.com.br

 

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