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Filme australiano vence em Manaus

Luiz Zanin Oricchio

14 de novembro de 2009 | 11h07

Em cerimônia animada, em praça pública no Largo de São Sebastião, com queima de fogos em frente do Teatro Amazonas e presença dos “bois” Caprichoso e Garantido, foram conhecidos os vencedores do 6º Amazonas Film Festival. Uma boa decisão do júri, presidido pelo cineasta norte-americano John McTiernan: em primeiro lugar, entre os filmes de ficção, ficou o australiano Samson & Delilah, de Warwick Thornton, e, em segundo, Whisper with the Wind, do curdo Sharam Alidi. O prêmio do público foi para The Road, produção norte-americana do australiano John Hillcoat.

Essa premiação destaca o que houve de melhor entre os filmes de ficção. Um reparo, talvez, seja a ausência do belo Frontier Blues, do iraniano Babak Jalali, uma trama minimalista que envolve quatro histórias passadas na fronteira do norte do Irã com o Turcomenistão. Mas essa é uma das características deste festival – poucos prêmios, o que faz com que bons títulos às vezes saiam de mãos abanando. Em todas as categorias há apenas o Grande Prêmio do Júri (1º lugar), o Prêmio do Júri (2º lugar) e a votação do público. E ponto.

Em todo caso, registro feito à omissão a Frontier Blues, deve-se reconhecer que Samson & Delilah era mesmo o candidato mais completo. Já tinha inclusive sido reconhecido pelo prêmio Cámera d”Or, do Festival de Cannes, e é o candidato da Austrália a uma das vagas para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Conta a história de dois adolescentes, Samson e Delilah, que vivem numa comunidade aborígene no meio do deserto australiano. Uma vida de pobreza, em contato com as drogas, porém narrada em tom poético e nada miserabilista. Filme duro, complexo, com momentos de grande impacto. Tomara algum distribuidor inteligente e ousado se interesse em comprá-lo para o circuito comercial brasileiro.

Também Whisper with the Wind investe numa linguagem poética de alto simbolismo, para falar do sofrimento do povo curdo, disperso por três países, Irã, Iraque e Turquia. O diretor Shahram Alidi cria um personagem muito original – Mam Baldar – para abordar esse tema. Baldar é uma espécie singular de carteiro, que grava mensagens e as entrega em partes diferentes do território em guerra. Uma delas ganha relevo especial. Um guerrilheiro não pode estar em sua aldeia, onde sua mulher vai dar à luz. Pede que Baldar grave o primeiro choro da criança e traga a fita para ele. Num trabalho visualmente muito sofisticado, esse filme desarma clichês e faz com que um lugar-comum tão batido, como o choro do recém-nascido significando esperança e renovação, pareça na verdade novinho em folha. É emocionante.

Já o preferido do público, The Road, de John Hillcoat, traz Viggo Mortensen como o pai que procura proteger seu filho em uma América devastada por algum cataclismo do qual pouco sabemos. Pode ser uma explosão nuclear, uma catástrofe ecológica ou qualquer coisa do tipo. O que se sabe é que a civilização desapareceu e os homens estão entregues à única tarefa de sobreviver. Nessas condições, o homem se torna o lobo do homem, como dizia Hobbes. Desaparece a solidariedade e cada semelhante é visto como ameaça em potencial, além de boca concorrente para a pouca alimentação disponível. A trama é tirada do livro homônimo de Cormac McCarthy, o mesmo de Meridiano Sangrento e Onde os Fracos não Têm Vez, este filmado pelos irmãos Coen e vencedor do Oscar. O universo de McCarthy é escuro como a asa da graúna e o filme vai nesse sentido, embora, no final, acene com um raiozinho de luz. Quase nada, mas, para quem tolerou tanto sofrimento ao longo da história, já chega a ser um certo alívio. John Hillcoat, contaminado pelo tema, opta por uma direção bastante pesada. Mas se o público gostou, é sinal de que o filme comunica-se e atinge seus objetivos.

Entre os documentários, os vencedores foram o francês Wild Opera, de Laurent Frapat, em primeiro lugar, e Lost Gorillas of Virunga (EUA) e Green (França) dividindo o segundo prêmio. Crude (EUA) ganhou o júri popular. Todos os filmes são ligados a temas ecológicos, um dos focos do festival. A Distração de Ivan, de Cavi Borges e Gustavo Melo, foi o melhor curta em 35 mm; o segundo lugar ficou para Divino, de Repente, de Fábio Yamagi, enquanto o público preferiu A Guerra de Arturo, de Julio Taubkin e Pedro Arantes.

Foi um bom festival. Os filmes estiveram à altura e talvez a seleção dos longas de ficção tenha sido a melhor desde que o Amazonas Film Festival começou. O júri foi muito criterioso e acertou em suas escolhas. Houve bons convidados, simpáticos e com coisas a dizer. Outros torceram o nariz e arrastaram o próprio ego pela selva amazônica. Algumas pequenas celebridades globais deram piti. Faz parte. O festival vai bem e se consolida.

(Caderno 2, 14/11/09)

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