‘Filhos de João’: homenagem a Moraes Moreira
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‘Filhos de João’: homenagem a Moraes Moreira

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2020 | 16h19

Em homenagem a Moraes Moreira, republico um texto sobre o maravilhoso documentário de Henrique Dantas: Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano. 

A certidão de nascimento do documentário de Henrique Dantas está no título: Filhos de João. E completa-se no subtítulo: O Admirável Mundo Novo Baiano. Sim, é um filme sobre o grupo musical Novos Baianos, de Moraes Moreira, Galvão, Pepeu Gomes, Baby Consuelo e outros. Mas é, acima de tudo, uma reflexão (muito bem-humorada) a respeito da influência exercida por João Gilberto sobre o grupo e, por extensão, sobre todo o novo caminho da música popular brasileira, redefinido a partir do seu surgimento em cena.

Inútil dizer que João não aparece no filme em pessoa, ele que vive recluso, e não é chegado a essas intimidades. Surge, sem cessar, na fala das outras pessoas. E são elas que mostram o quanto devem e todos devemos a João. Ele compareceu, em pessoa, de improviso, num apartamento ocupado pelo grupo (já com vocação comunitária), no Rio de Janeiro. Veio de terno, às 3h da manhã, e bateu na porta de um apartamento onde rolava de tudo, inclusive música. Essa música era rock. Com ingredientes brasileiros, mas rock. Ao verem a figura pelo olho mágico, pensaram que fosse a polícia. Depois de devidamente reconhecido, João adentrou o recinto e sacou o violão. Começou a tocar sambas, choros e sucessos brasileiros do passado, para deslumbramento dos pirados. Foi assim madrugada adentro. E, de acordo com Moraes Moreira, aquilo contaminou para sempre o grupo com o vírus da música popular brasileira. “Tomamos outro rumo”, diz.

Mais uma prova da presença de João, está na música (e disco do mesmo nome) talvez mais conhecido do grupo: Acabou Chorare. A frase, infantil, foi dirigida a João para sua filha pequena, Bebel, que havia caído no chão e estava chorando. Ele contou a história aos amigos. Moraes e Galvão a pegaram no ar, como quem pega um passarinho e a transformaram na canção, um acalanto, na verdade. “Quando eu fiz essa canção, fiquei uns quatro dias sem dormir, só curtindo, só viajando na música”, lembra Moraes Moreira.

O filme não relembra apenas a régua e o compasso emprestados por João ao grupo, mas fala de outras aventuras. Por exemplo, da fundação da comunidade num sítio de Jacarepaguá, o Cantinho do Vovô, que eles alugaram e para onde se mudaram. Lá, jogavam futebol todas as manhãs e à tarde faziam música. E o mais que se puder imaginar. Como, entre outras coisas, também faziam filhos, as obrigações foram aparecendo. E, depois de alguns anos, houve também o desgaste natural. Moraes já era pai de dois filhos e quis sair da comunidade. Com ele, as coisas já não eram as mesmas e o grupo começou a se dissolver. Foi um processo de anos.

Mesmo assim, quando a comunidade, no início dos anos 70, vivia o seu auge, provocou um comentário talvez nostálgico de João Gilberto, que queria ter vivido experiência semelhante. Ter um grupo de amigos músicos e morarem todos juntos, com suas mulheres e agregados – eis aí uma das facetas utópicas da contracultura brasileira.

Sim, porque vale a pena deixar bem claro, Filhos de João fala de um grupo musical, um dos mais queridos do País, mas vai além: fala, acima de tudo, de uma época e de uma mentalidade. Alegria, drogas, música, criatividade, a liberdade sob todas as suas formas. Era o que se buscava, no retiro de um sítio, em meio a uma ditadura militar. “Achávamos que íamos mudar o sistema”, diz Galvão, com um sorriso. “O que não sabíamos é que o sistema era tão forte”. Certo, mas um sonho não precisa ser eterno, e nem mesmo se concretizar, para valer a pena.

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