Festival Varilux de cinema francês: Asterix ou Netflix?
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Festival Varilux de cinema francês: Asterix ou Netflix?

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2021 | 19h22

Ilusões Perdidas: filme de Xavier Giannoli inspirado na obra-prima de Honoré de Balzac

 

Começa mais um Festival Varilux de cinema francês (25/11 a 8/12). Evento meio gigante, em 49 municípios brasileiros, com 17 filmes inéditos e mais alguns clássicos, além de uma homenagem ao ator Jean-Paul Belmondo, falecido em setembro. Programação no site:  https://variluxcinefrances.com/2021

 

Dos filmes novos, eu destaco alguns: 

Ilusões Perdidas, de Xavier Giannoli, ótima adaptação do romance de Honoré de Balzac. Conta a história do provinciano Lucien de Rubempré, que sai de Angoulême e vai tentar a vida em Paris em companhia da amante, Louise, uma nobre do interior, mas com parente influente na capital. 

O romance de Balzac é um monumento dentro de outro, 790 páginas na edição brasileira da Penguin/Cia das Letras, parte da gigantesca Comédia Humana, 95 obras concluídas e 46 inconclusas. Giannoli toma apenas uma das partes do romance, ironicamente intitulada de Um Grande Homem de Província em Paris. 

O plebeu Rubempré, que na verdade adotara, sem direito, o nome da mãe, podia ser alguém notável no interior. Em Paris era um zero à esquerda, uma nulidade, um tipo risível, coisa que ele descobre rapidinho. Aliás, sua amante, Louise (Cecile de France), descobre a mesma coisa. 

O destaque é para a cena jornalística na efervescente Paris do século 19, na qual Rubempré consegue ingressar e tornar-se uma estrela graças à sua pena venenosa, como convinha então. 

Seria fácil destacar algumas cenas marcantes dessa adaptação inspirada. Uma delas é inesquecível para quem exerce o ofício da crítica. Rubempré precisa demolir um livro. O problema é que ele gostou da obra. Seu mentor, o cínico Etienne Lousteau (Vincent Lacoste), lhe diz que é muito fácil: “Basta transformar as qualidades em defeitos”. Assim, se a obra é bem estruturada, diga que é rígida. Se for ousada, escreva que deseja chocar. E assim por diante. Escrevo tomando a ideia geral, mas não me lembro exatamente os diálogos. São hilariantes. 

Outro a dar show é Gerard Depardieu, como Dauriat, um editor analfabeto de pai e mãe, mas desbocado e muito safo em seu métier. O mundo das aparências na Paris da Restauração poucas vezes foi retratado tão bem. 

Filme vibrante, com Benjamin Voisin no papel de Lucien e outros grandes nomes no elenco, como Jeanne Balibar, Cécile de France, Xavier Dolan e Gérard Depardieu. Filmaço. 

Está Tudo Bem, de François Ozon, história tocante de um pai, muito doente, André (André Dussollier), que encomenda a eutanásia à própria filha, Emmanuelle (Sophie Marceau). Homem cheio de vida, rico e colecionador de arte, André, aos 85 anos, não se conforma em ficar incapacitado depois de sofrer um AVC.

O tema da morte digna e suas dificuldades aparece aqui sem qualquer concessão e também sem aparar suas arestas. Esse assunto às vezes é tratado no cinema como se fosse um passeio no bosque. Pelo contrário, exige uma determinação de ferro de quem parte e deixa toda a dor do mundo para quem fica e tem de cumprir as determinações. 

Titane, de Julia Ducourneau, foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano. Num acidente de carro, uma menina recebe uma placa de titânio no cérebro, o que a torna uma serial-killer. Perseguida, ela busca abrigo com seu suposto pai (Vincent Lindon), um bombeiro que lidera uma equipe parecida à uma seita de fanáticos. Clima futurístico e distópico, com visual arrebatador.   

Assisti a Titane na Mostra e confesso ter saído confuso da sala – o que indica uma ótima experiência cinematográfica. É bastante incômodo. E também muito estimulante para a reflexão. Vale a pena ver. E tirar as próprias conclusões, que é o que importa. 

Entre os títulos de homenagem a Jean-Paul Belmondo, destaco, claro, o clássico de Godard Pierrot le Fou, no Brasil mais conhecido por Demônio das Onze Horas, vejam só. O Homem do Rio, de Philippe de Broca, foi, claro, filmado no Brasil. Também dignos de interesse Técnicas de um Delator e Leon Morin, o Padre, ambos de Jean-Pierre Melville. 

No Varilux, é tudo na tela grande, sem streaming. A França trava essa luta um tanto quixotesca (é um elogio) para salvar o cinema em seu modo de exibição tradicional – sala com público, escurinho, tela grande. O sistema foi inventado por eles, os irmãos Lumiére, em 1895, e não pretendem abrir mão. Como modelo de negócio, tratam de manter viva a chamada “janela de exibição”. Ou seja, os filmes são exibidos primeiro nos cinemas e só depois de certo tempo passam para as outras mídias. 

Quem ganha essa queda de braço? Asterix ou Netflix?

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