Fernando Birri, um mascate de imagens
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Fernando Birri, um mascate de imagens

Luiz Zanin Oricchio

24 Agosto 2009 | 13h29

birri

Todo mundo o considera um dos pais do moderno cinema latino-americano. Mas o argentino Fernando Birri prefere que o chamem de ”mascate de imagens”. Foi assim mesmo que ele se definiu em sua recente passagem pelo Brasil, no Cine Ceará, onde foi apresentar seu filme Mi Hijo el Che, feito a partir de entrevistas com o pai de Che Guevara, Ernesto Guevara Lynch. ”Sou um errante; sigo pelos países do mundo com essas pequenas imagens no baú, como os antigos caixeiros-viajavam pelas estradas com seus tecidos e seus botões”, disse, na apresentação do filme em Fortaleza. ”Vou vendo o que as pessoas precisam e, se estiver ao meu alcance, forneço-lhes essas minhas modestas imagens.”

O mascate de imagens não poderia ter aparência mais apropriada. Aliás, ele mesmo se parece com o título de outro dos seus filmes – Um Senhor Muito Velho Com as Asas Enormes. Título adaptado de conto de um dos seus grandes amigos, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, parceiro no apoio constante e tenaz à Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, em Cuba. Idoso, Birri deve mesmo ser, pois subtraindo 2009 de 1925, ano em que nasceu em Santa Fé, na Argentina, obtém-se os seus 84 anos de idade. A barba é longa e branca, como brancos em geral são seus trajes, o que lhe dá uma aparência de profeta, algo como um Tolstoi do cinema, comparação que ele talvez não aceitasse, pois não é nem latifundiário, muito menos cristão, embora goze de um otimismo contagioso, uma inabalável fé no ser humano, mesmo em tempos difíceis e cheios de incredulidade.

Acontece que Birri, ao mesmo tempo em que professa a crença em seus contemporâneos, é também um homem realista. Percebi isso quando o conheci, muitos anos atrás, no Rio de Janeiro. Birri apresentava então seu documentário Tire Dié, talvez seu filme mais famoso. Uma explicação prévia: Tire Dié é uma corruptela da expressão ”Tire diez (atire dez)”, que os meninos pobres gritavam, repetidamente, aos passageiros do trem, correndo por uma plataforma alta e estreita, arriscando-se a morrer por uma moeda de dez centavos de peso. É um filme alucinado, em que a pobreza do interior argentino aparece na tela sob forma transfigurada e contundente, que atinge o espectador no plexo solar. O pedido de esmola, reiterado, transforma-se em estranha ladainha, uma litania da miséria. Quando lhe disse da comoção que o filme havia provocado, Birri respondeu, no ato: ”Si, quiero mi espectador conmovido, pero lúcido.”

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Esta poderia ser uma daquelas frases simbólicas, que definem com seu peso uma postura tanto estética como ética e política do realizador. Ela sai da vivência real na feitura deste filme, sobre o qual já tanto se falou, escreveu e discutiu, e que é uma das matrizes da moderna cinematografia do continente. Foi realizado por 120 alunos da Escola de Documentaristas de Santa Fé, sob supervisão de Birri, entre os anos 1956-1958. Além de dividir crédito com os estudantes, Birri vai além. Costuma dizer: ”O pai deste documentário na verdade não sou eu; é a própria História.” Assim, há quase como uma impessoalidade na maneira como registra esse fragmento cotidiano da Santa Fé dos anos 50. Mas ele o transfigura em algo que soa como uma obra de arte superior e perene. Encanta a plateia, ao mesmo tempo em que a força a refletir sobre aquilo que está vendo. Comoção e lucidez. Emoção e política.

Uma combinação que não agradava aos donos do poder da Argentina no começo dos anos 60 e forçou Birri a buscar o exílio – justamente no Brasil de João Goulart. Aqui, ele fez amizade com Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, entre outros. Gente que estava cozinhando a grande revolução que viria a ser o Cinema Novo e tinha Birri como irmão de ideias e um mestre a ser ouvido. Sua influência durante o tempo em que esteve aqui não pode ser subestimada. Por exemplo, em 1963, realizou-se no Museu de Arte de São Paulo (Masp) um ciclo de conferências sobre a obra de Birri, tendo como convidado o próprio cineasta. É verdade que a influência de Birri sobre o cinema brasileiro já era anterior, da década de 50, quando os então jovens aspirantes a cineastas Maurice Capovilla e Vladimir Herzog foram visitá-lo em Santa Fé e estudaram o que ali se fazia. Mas a partir do simpósio no Masp pode-se dizer que Birri está na origem, como inspirador, do projeto Brasil Verdade, que, sob a supervisão de Thomaz Farkas, produziu documentários tão importantes como Viramundo, de Geraldo Sarno, Subterrâneos do Futebol, de Maurice Capovilla, e Memórias do Cangaço, de Paulo Gil Soares.

Em seu período brasileiro, Birri tinha o projeto de fazer em parceria com Ferreira Gullar o filme João Boa Morte, que acabou não saindo. O golpe militar de 1964 encerrou sua temporada no Brasil e fez com que procurasse ares mais amenos. Tornou-se um cigano, com passagens por Cuba, China, a então União Soviética, Espanha, Argélia, Índia, Nepal, Alemanha, México, Uruguai e Venezuela, até pousar seu baú de mascate na Itália, onde até hoje reside. Mora em Roma, cidade onde estudou, na juventude, no mítico Centro Sperimentale di Cinematografia, que, na época, difundia as ideias do neorrealismo italiano, a cartilha humanista escrita e filmada por Roberto Rossellini e Cesare Zavattini.

Birri é um inquieto. Ocupou cargos institucionais, na Escola de Santa Fé e na Escola de Cinema de San Antonio de los Baños, da qual foi o primeiro diretor. Nunca parou de fazer filmes e é autor de obras como La Primera Fundacion de Buenos Aires (1959), La Pampa Gringa (1962), Rafael Alberti – Retrato del Poeta (1983), Nicarágua (1984) e Mi Hijo el Che (1985). Seus longas mais importantes, além do já citado Un Señor Muy Viejo con Unas Alas Enormes (1988) são Los Inundados (1961) e Org (1967). Este último é um ícone do cinema experimental, com Birri tentando uma fusão criativa entre as ideias marxistas e as do psicanalista dissidente Wilhelm Reich. Uma proposta de ”cosmunismo (sic) universal”. Um comunismo cósmico que não daria as costas jamais para o Princípio do Prazer. Nos últimos anos continuou a lançar seus filmes – El Siglo del Viento (1999), ZA – Lo Viejo y lo Nuevo (2006) e Elegia Friulana (2007). Estes dois últimos são de temática italiana. ZA é uma homenagem a seu eterno mestre, Cesare Zavattini, e Elegia Friulana lembra, a partir de imagens, a região de origem de seus antepassados, o Friuli.

Além disso, Birri desenha, pinta, escreve prosa e verso e é ator. Escreve, escreve muito, e vai da ficção à reflexão teórica sem qualquer problema, pois as considera facetas de uma mesma atitude diante da realidade. Maneiras diferentes de manter olhos abertos sobre o que acontece à sua volta. Uma bela coletânea dos seus textos foi lançada no ano passado com o título de O Alquimista Democrático, numa edição caprichada e cheia de invenção gráfica, coedição do Cine Ceará com a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Nela se encontram textos teóricos, desenhos, poemas e reflexões, inventário de uma carreira muito longa e criativa. Há desde seus primeiros estudos engajados sobre um cinema no subdesenvolvimento, até anotações sobre seus filmes. O anárquico Org, por exemplo, é definido com um ”filme que demorou um ano para ser feito e nove para ser desfeito”, referindo-se à laboriosa desconstrução da montagem dessa obra libertária, que não deveria aprisionar o espectador em qualquer certeza e termina com a própria película queimando e desfazendo-se diante do público perplexo.

O engraçado é que essa pessoa tão afável e disponível mostra-se evasiva quando se trata de conceder entrevistas formais. Eu já havia conversado com ele várias vezes quando o encontrei, anos atrás, em Cuba. Pedi-lhe então uma entrevista para uma longa matéria que estava planejando, mas ele fez uma contraproposta. Como estávamos hospedados no mesmo hotel, o Havana Livre, o antigo Hilton dos tempos de Fulgêncio Batista, poderíamos tomar o café da manhã juntos todos os dias e conversaríamos à vontade. Sem bloquinho ou gravador. Foi o que fizemos. E, ao longo dos dez dias em que durou nossa convivência matinal, falamos sobre tudo, de cinema a literatura, passando, obviamente, pela política mundial. Desse modo foi feita a ”entrevista”. E essa passou a ser a norma todas as vezes em que voltamos a nos encontrar pelo mundo, em Havana outras vezes, mas também em Veneza, Rio, São Paulo e Fortaleza. Conversas, trocas de ideias entre amigos, nunca entrevistas formais, em que um pergunta e o outro fala. Birri prefere o diálogo.

Essa vocação profundamente democrática talvez seja a qualidade que faz dele um ser humano e artista incomum. Birri tem seu ponto de vista, mas sabe ouvir o do outro e entender-lhe a razão. Saber ouvir foi fundamental quando procurou buscar quem era Che Guevara, a pessoa escondida atrás do mito, e que desvendou na série de encontros com Ernesto Guevara Lynch, o pai. Nessa procura pelo ser humano, através dos olhos do pai que sobrevive a ele, Birri redescobre o menino chamado de ”Ernestito”, e cuja saúde frágil era a preocupação principal da família. Há um propósito aí. As circunstâncias fizeram do cidadão Ernesto Guevara, o Che. Com a morte, tornou-se mito, depois arquétipo e, em seguida, estereótipo. Quer dizer, um signo vazio de sentido. Redescobrir a figura atrás do estereótipo seria a maneira de desfazê-lo e voltar a injetar-lhe sentido. Para isso, o olhar do pai foi fundamental, o que torna Mi Hijo el Che um dos filmes mais importantes para entender a figura do guerrilheiro.

Birri se interessa pela História e pelas figuras históricas, mas apenas na medida em que podem iluminar o presente. Daí que, em sua passagem por Fortaleza, não tenha manifestado tanto interesse em falar em Guevara, ou em lutas ou ilusões de outros tempos, pois algo mais urgente se impunha. Sua preocupação maior era com Honduras e o golpe militar que destituiu o presidente Manuel Zelaya. ”Pensei que depois de tantos golpes na democracia latino-americana já estivéssemos vacinados, mas não. O que aconteceu em Honduras é como se a História tivesse sido acometida de Alzheimer”, espanta-se. Durante o festival, Birri podia ser visto, com o vigor de um universitário, angariando assinaturas para o manifesto que escreveu contra o golpe hondurenho.

Assim é Birri, um eterno garoto de mais de 80 anos, que não perde o encanto diante da vida nem a capacidade de se indignar. Um homem que cita constantemente a palavra História, mas que se sente bem ancorado no presente. Por falar nisso, quando não está pensando em cinema, literatura, política e outras urgências, este senhor muito velho com suas asas enormes se dedica, com entusiasmo, à sua página no site de relacionamentos Facebook.

(Cultura, 23/8/09)