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Férias, amor & anarquia

Luiz Zanin Oricchio

27 de novembro de 2009 | 19h13

Há muitos anos, lá pela década de 1980, eu morava no Guarujá e trabalhava em São Paulo. Às vezes vinha e voltava de carro, mas a estrada cansa e comecei a usar o serviço de ônibus, ótimo, aliás. Aproveitava o tempo para ler um pouco, e dormir. De vez em quando conversava um tanto com quem o acaso colocava na poltrona ao lado. Mas preferia mesmo ficar na minha. A estrada te dá uma espécie de intimidade consigo mesmo, de liberdade, de disponibilidade total daquele tempo meio morto, sensações que não devem ser negligenciadas. Mesmo que esse tempo seja pouco mais que hora e meia.

Um dia, no entanto, sentou na poltrona ao lado um velhinho, e fomos tagarelando de São Paulo ao Guarujá, sem parar. Ele falou muito mais do que eu. Me contou parte da sua vida. Era catalão e havia participado da Guerra Civil Espanhola. Anarquista até a sola dos sapatos, depois da vitória de Franco atravessou o Atlântico e veio dar neste país, que percorreu também de norte a sul. Fazia alguns anos havia se estabelecido no Guarujá, onde ganhava a vida como caseiro de um condomínio de luxo. Rimos dessa ironia da história: um anarquista que toma conta das casas da burguesia. Ele não se importou. Ganhava a vida, isso era tudo.

Chegamos à rodoviária do Guarujá, nos despedimos e pedi para que nos encontrássemos de novo, tão encantado ficara com a conversa. O velhinho me olhou nos olhos e sorriu: “Si, pero sin compromisos”. Esse era o verdadeiro anarquista. Gostara de me conhecer por acaso e teria prazer em continuar a conversa se a sorte nos reunisse outra vez. Não precisávamos nos prender a datas, horários e cadernetas de anotações. Lembrei-me na hora da história daquele outro militante anarquista respondendo ao comunista que lhe propunha fundar uma organização: “Nosotros nos encontramos en la calle”. Nos encontramos na rua.

Inútil dizer que nunca mais vi o velho catalão, mas dele me ficou a lembrança. E uso essa memória para dizer que estou entrando em férias a partir de hoje. Vão me fazer bem, pois tive um ano extenuante, de muito trabalho e viagens. Nada disso mata. O que mata são as outras coisas que acontecem com a gente e sobre as quais não exercemos o menor controle. Acidentes de percurso na carreira e perdas familiares irreparáveis. Enfim, preciso de uma pausa e vou aproveitá-la para estar mais com minha mulher, nadar, andar na praia, ler e ver o que for possível. Levo umas matérias para fazer e ainda vou escrever duas colunas de futebol para o jornal, pois acho sacanagem abandonar o Campeonato Brasileiro nesta reta final. Depois, chega.

De todo modo, estarei com meu computadorzinho ao lado e, se der vontade, posso colocar um post ou outro durante o mês, se quiser dizer alguma coisa ou ao sabor do desejo despertado por um filme ou alguma leitura.

Mas, como dizia o meu amigo anarquista, “sin compromisos”.

Bom final de ano a todos e ótimo 2010 para nós, que bem o merecemos.

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